Bem-aventurança

 
Senhor alto, branco, de olhos muito azuis, engenheiro, o presidente da fundação onde sou voluntária, e da empresa que leva o mesmo nome, é um visionário como eu jamais acreditei que houvesse fora de uma grande organização financeira, industrial ou de ensino. . Sua presença humilde, simples e acessível não oculta a sua importância, mas ele parece saber, como só os educadores parecem saber, que todas as pessoas são importantes.
 

Sua fala diante de todos reforça a missão do voluntário no programa – nome que ele entende não definir apropriadamente quem se dedica a dialogar com as pessoas através dos livros para depertar nelas a consciência de seus saberes e valores e, consequentemente, sua autonomia para viver e evoluir – dedicando-se a um constante "melhoramento". Seu inconformismo diante da dependência das pessoas em serem ajudadas e principalmente reconhecidas – assim você se torna totalmente refém, manipulável, disse ele – e da cômoda posição de quem se acha sábio o suficiente para nada mais aprender, além da larga carência de recursos de quem luta pra sobreviver, distante do seu potencial de vida, o levou a iniciar um programa com uma visão bastante ambiciosa: a de ver funcionar no Brasil, 1 milhão de rodas de leitura.

Chamaram-me de surpresa pra falar em nome dos voluntários – estavamos reunidos para encerrar o ano e fazer uma simples cerimônia de formatura; dificilmente, sem preparar algo, eu conseguiria falar assim, de forma estruturada, com começo-meio-e-fim, ainda mais depois da representante dos parceiros e dele, o presidente. Mas no fundo fui tranquila pois o que tinha pra ser dito já mora no meu coração faz tempo, mas digo tranquila numas: com o coração acelerado e a garganta seca. Depois que eu confessei meu estado emocional, voltei a ficar bem e falei.

Quando estamos buscando o nosso sentido, tudo pode acontecer e neste ano, uma nova história estava tomando corpo dentro de mim, vida que só pude conhecer o rosto depois que entrei na fundação. Baseada nos principios da educação real, a fundação não só me deu os estímulos pra me reconhecer naquela que sou, a vida dentro de mim, mas também a paixão necessária pela vida e pelo trabalho de fazer o mesmo pelas outras pessoas. Nada melhor do que fazê-lo sob o patrocínio, a visão e paixão de um homem que acredita que o Brasil será o melhor país do mundo. Não resisti em oferecer um contraponto a partir das minhas descobertas com o trabalho na escola em que atuei: na verdade o Brasil é, só precisa que todos coloquem isso sob a luz para enxergar e passar a viver de acordo com isso, que é o real. Movimento que nós mesmos devemos nos fazer, de nos conscientizarmos sobre nosso ser e viver conforme sua riqueza, encorajamento que a roda dá às pessoas por meio dos mediadores. Tanto aqueles que puderam fazer um trabalho constante, bem planejado e com poucos imprevistos, como aqueles que estavam cercados de toda a sorte de dificuldades, contratempos e imprevistos.

O importante é que ao menos por um minuto que fosse, proporcionamos a quem participou das rodas de leitura, a condição de acreditar em si mesmo, de se olhar e se descobrir apaixonado pela vida, e saber-se na realidade melhor pessoa do que jamais sonhou, dádiva que nos coube também, encantados pela causa que também nos resgatou de uma maneira ou de outra.

O presidente me deu oportunidade de convsersar com ele quando se sentou em nossa mesa no almoço, ao meu lado, me perguntando diretamente o que fazia além do maravilhoso trabalho que eu tinha feito na escola. Contei-lhe e lhe disse, por fim, como a sua concepção era brilhante e quanta certeza eu tinha de que as rodas atingiriam os seus propósitos e as diversas camadas da população. Comentei que a roda de leitura dá um estímulo ao melhoramento que pode funcionar pra qualquer pessoa, inclusive os "nada-a-melhorar" convictos, pois todo mundo tem em sua história algo que as coloca na contramão, na escuridão ou no berço do dolce-far-niente. No fundo, e digo que a infelicidade que sentem é um sintoma, todos desejam ser resgatados desses becos e ficam com uma mãozinha estendida para o socorro, que só o diálogo livre, atento e direto da roda pode oferecer.

É claro também que o socorro da roda de leitura não é definitivo – a idéia não é ser missionário religioso – pois também, ela poderá estar, para cada pessoa, num determinado trecho de sua montanha: em sua escalada a roda pode tanto estar no vale (no incío), como num platô perto de um abismo onde a pessoa cairia ou veria uma linda vista do seu futuro, como perto do topo onde ela seguiria seu caminho plano, seu caminho bem-aventurado.

Durante o almoço, as pessoas ainda me tratavam com muita generosidade e fiquei contente demais da conta por tanta acolhida. Cumprimentos pela fala, pelo trabalho,pela atitude, feedback positivo da escola e boas possibilidades como a de abrir um projeto em prol da continuidade da roda na escola aos sábados, notícias boas da coordenadora a de que um dos meninos participantes da minha roda tinha lido duas vezes os livros que dei, e de uma das responsáveis epal comunicação do Projeto, um "eu tinha que falar pra você": que eu trazia sempre coisas boas. Parece bobo repetir tudo isso, mas na verdade é um reconhecimento que faz parte do gesto de ascender a luz sobre o que somos.

Todos, ao ascenderem a luz de si, serão notados com esse calor, esse afeto, essa generosidade. É como diz Joseph Campbell sobre a jornada pessoal de cada um:

" Pondo-se em busca da sua aventurança, você se coloca numa espécie de trilha que esteve aí o tempo todo, à sua espera, e a vida que você tem que viver é essa mesma que você está vivendo. Quando consegue ver isso, você começa a encontrar pessoas que estão no campo da sua bem-aventurança, e elas abrem a porta para você. Eu costumo dizer: Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo, que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas."

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