O velejador

Estar num processo de transição, de mudanças muitas vezes é andar com um sapato novo que forma calos em todos os pontos do pé e quem já viveu isso, sabe  que um pé mastigado por um sapato, machuca até a alma, respirar fica difícil. Uma outra forma de ver, é a costumeira visão de Amyr (klink) e seu barquinho enfrentando um mar em depressão de madrugada: não há visibilidade, controle possível. Só dá pra torcer para que as ondas gigantes não o esmaguem.
 
No escritório vivo uma situação assim, é a sua dor e a de quem te segue; não é hipocrisia dizer isso: um chefe sofre sim, senhor, o que sofre o seu liderado. Batemos nossas metas diárias, persistimos em fazer bem feito, com lágrimas e quando paro pra respirar, dar o graças a Deus, o ar não vem por causa da angústia dos pés mastigados, do mar em depressão, da baixa visibilidade do horizonte.
 
Às vezes a gente se concentra, entende que isso é só um delírio de ansiedade, preocupação e respira, na confiança: olha para o que está na frente e não para as circuntâncias, nem para os comportamentos que a gente observa e que falam mais alto que qualquer discurso do tipo, "tá vendo pelo em ovo". Mas às vezes, a gente sente uma vontade louca de arrancar o sapato e jogar pela janela, dessamassar e cauterizar os pés num chão fresco, ainda não seja de grama fofa e orvalhada; mas não tira porque a festa ainda não acabou, tampouco sai do barco porque a viagem continua e não tem porto onde descer.
 
Saí do escritório com um sentmento de impotência, minha cabeça estava estourando e pelas náuseas, percebi que uma gastrite parecia ser o que eu tinha conseguido naquela luta toda. Ao atravessar a primeira porta, cruza o meu caminho, um homem sem o braço direito. Percebi que todas as vezes em que me sinto impotente ou não assumo o comando em processos de mudança, estabelecendo eu mesma o rumo, algum deficiente físico, feliz, ativo, produtivo, cruza o meu caminho.
 
Embora eu tivesse percebido isso, não recuperei as forças, continuei abatida e reclamei com Deus que não adiantava nada me mostrar exemplos aos quais eu não conseguia seguir.  Ao sair do prédio, tomei uma condução, e alguns minutos mais tarde, quando parávamos por causa do trânsito, vi outro homem deficiente, desses que ensinam a gente. Ele tinha o tronco arqueado para um lado, as pernas flexionadas, como se vivesse entre agachado e de joelhos – não dá pra andar assim. Ao invés de fazer como a maioria, sentar-se num carrinho de rolimã e rodar pelas ruas, ele se segurava num cabo de madeira com uma borracha na ponta como se o cabo fosse uma perna e as suas duas pernas, fosse a outra. Imagina o efeito: parecia que o homem estava remando.
 
Quando lembrei da minha brincadeira de criança de me imaginar num grande barco, tendo as nuvens como um ponto de referência fixo para a sensação de movimento, não tinha percebido que lá no meu barco imaginário, – um grande veleiro a todo o pano -,  alguém estava no leme pra mim. E que adulta, eu devia assumir o controle, assumir os riscos e aprender a ter uma esperança ativa e uma fé, como diria minha tia e minha prima, raciocinada.
 
E o homem estava me dizendo isso, ao andar remando e parando para cumprimentar um amigo, com um sorriso tranquilo, farto, de homem satisfeito. Senti muita vergonha das minhas teimosias e burrices, das fraquezas, do tempo perdido, das mágoas causadas e das ofensas e ataques sofridos. Nada do que vivi nestas semanas teria acontecido se eu estivesse no comando. Meus desafios seriam outros, mas não precisava passar por estes.
 
Necessito urgentemente aprender a velejar como aquele homem.
 
 
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