Acompanhada

Manhã de primavera, de brisa e temperatura amena, céu livre de nuvens, com sabiás e bem-te-vis cantando nos ipês roxos e amarelos da vizinhança. Amo isso tudo com paixão. Abro a janela e prendo as cortinas, pode entrar sol e vento. O vento entra forte e bate a porta. Me deu vontade de gritar: "Minino, num bate a porta !" Gritei e ri, é gostoso brincar com o vento.

Resolvi tomar café na padaria e ler um dos livros deixados pela fundação para o meu trabalho, do Drummond de Andrade, ilustrado pelo Ziraldo, História de Dois Amores; curtinho, dava ler entre o primeiro gole de café, a mordida no pão quentinho e o último pedaço de fruta.

É a história de uma pulga – nesse caso, o pulgo, que encontra um elefante, que encontra um elefante amigo, depois a elefanta namorada, que faz o pulgo encontrar a pulga namorada e por fim, vivem felizes para sempre. A trajetória fala da força da amizade, da generosidade e compaixão do elefante que foi infernizado pela geniosa pulga, pelos ciumentos e ambiciosos elefantes, martirizado pela solidão, abençoado com o amor. Lindo, lindo. Para encontrar o seu grande amor, ele deixou de ouvir o zumbido insistente da pulga que morava atrás da sua orelha, reclamando por poder, fama e fortuna – ela queria dominar o mundo das pulgas -, e se pôs a buscar a sua querida. Ela a elefanta, que esperava seu querido , topou namorar. O pulgo, inspirado, anunciou que também queria encontrar sua querida. Ela veio e disse mais ou menos assim : "Soube que você estava procurando sua querida. Aqui estou."

Gostei da atitude delas, que prontidão. Rapazes, decidam-se, esperamos um chamado para entrar… (risos). Me diverti muito.

Fui almoçar no restaurante perto de casa, pela primeira vez desde que me mudei. Adoro aquele lugar, mas com tempo só no domingo, não queria me aventurar sozinha num restaurante que lota com famílias e turmas de amigos. Como estava relaxada, faminta pela sua lasanha de berinjela, faminta para matar a saudade daquele cenário de fábrica reformado, com pé direito alto, vitrais, mesanino e jardim com caramanchões, não me importei de esperar, talvez, pela única mesa possivelmente disponível para pessoas desacompanhadas: aquela de uma cadeira só, nos fundos, perto da saída da cozinha. Todo restaurante tem uma mesa dessas.

Entrei, nenhuma fila, mas cheio de gente e esperei que algum garçon me olhasse pra que eu lhe fizesse um aceno discreto, do tipo, preciso falar com você. Muito gentil, me explicou como estavam servindo e entrei. Ele foi atrás de mim e perguntou: mesa só pra você? Sim, respondi já olhando para os fundos. Mas ele me levou pra mesa de quatro lugares que havia no centro do salão, onde batia a luz colorida de uns vitrais. Estou tão condicionada que resisti: mas moço, sou apenas eu. E ele, inesperadamente gentil e atento, respondeu: Pode ficar, essa mesa é sua. Sentamos eu e minhas três esperanças, inclusive uma das cadeiras que estava ali era de bebê.

Almocei bem, com calma, sem pensar em nada, sem sonhar nada, saboreando minha lasanha e minha experiência. Dali a pouco, um garçom aflito chegou e me pediu licença para puxar a outra mesa que estava comigo, que com a minha formava quatro lugares, para uma família que acabara de chegar; ele insistiu em me deixar com a cadeira para a minha bolsa, mas eu lhe disse que não tinha problema, podia levar a cadeira também, pois havia uma na minha frente.

Terminei meu almoço, com a mesa de dois lugares; mas continuei no centro do salão, sob aquela luz colorida de sol suave, que atravessa vitrais e acompanhada das minhas três esperanças.

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