11 de setembro

Hoje fazem 8 anos que homens assassinaram mais de 3.000 pessoas ao derrubarem as torres gêmeas do World Trade Center nos Estados Unidos e sempre me lembro dessa data como símbolo de todo o mal que nós somos capazes de fazer. Estranho, é um noticiário trágico como tantos outros que chocam, mas ainda hoje me emociono só de lembrar, especialmente do último avião em que os passageiros tentaram tomar o controle dos terroristas, sem conseguir. Que eles estejam em paz agora e sejam felizes enfim, onde quer que estejam.

* * *

Conversar com o meu chefe no fim do expediente no escritório hoje, foi como um valioso encontro entre dois viajantes na estrada. Cansados da poeira, do vento, dos insetos, do tumulto de multidões pelas quais passávamos, dos assaltantes e até de nós mesmos. Depois, com eu fiz com ele o que nunca tinha feito antes: rir tranquilamente, sem raiva contida, sem auto-comiseração, sem culpa, sem sapo na garganta, do lado mau das gentes. Por causa do riso, do sentimento que compartilhávamos, naquele momento senti uma grande ternura por ele e lembrei do Paulo Freire, dizendo que para ensinar é preciso gostar de gente.

Certamente quando ele disse isso, foi a respeito do nosso lado feio e mau, rindo como a gente naquela conversa, já descansados da viagem, despojados do pó da estrada. "É, as pessoas são engraçadas mesmo.", disse meu chefe, por fim. Nossas falhas e nossa ignorância, no fim, são risíveis. Aceitar que existem é o primeiro passo para a possibilidade de transformar e para a certeza de se libertar do que quer que aconteça – façamos nós ou os outros.

O ser humano é lindo e é feio. Quando estudo arte ou leio Joseph Campbell, entendo que o belo, o sublime, muitas vezes é o horror, que de tão feio, nos causa admiração. O belo, dizia minha querida professora de artes do colégio, não é necessariamente, bonito.

Somos belos, portanto.

A mentira é feia, assim como a teimosia, a maldade com propósito, o egoísmo, Assim como a falta de ética. Assim como a traição e a deslealdade. Assim como a tolice, o comodismo, a preguiça e a omissão. Assim como a inveja e os ciúmes, a vaidade e a ganância, o preconceito e o desrespeito. Assim como a intolerância, o ódio, a indiferença e os instintos criminosos.

Mas ninguém está livre disso, são coisas das gentes, de ser humano – sempre temos a oportunidade, porém, de a cada minuto, dar um passo rumo a nossa evolução, deixando pra trás um passo de ignorância.

Eu sempre fui, no que diz repeito aos abusos das pessoas e até do meus, conformada. Sofria, me entristecia, me enraivecia, mas perdoava rápido e me apaixonava de novo. A experiência com as pessoas difíceis que eu tive, com quem não tinha outra opção razoável no momento senão persistir na mudança delas e minha própria – sem manipulação, sem confronto, sem imposição – foi uma oportunidade pra descobrir que o nosso maior desafio não é evitar e vencer doenças, evitar perdas e danos, impedir o desamor, a traição e as derrotas e sim, vencer a ignorância.

Vencer a nossa ignorância é um baita de um desafio – simples e difícil, mas possível. Examinar a nossa consciência, encarar nossas feiuras é muitas vezes doloroso, mas quando o fazemos, descobrimos que é muito bom, pois descobrimos que ignorar torna tudo complicado e sem vida.

Vencer a nossa ignorância é um desafio diário – há um universo de aprendizados pela frente. É um desafio porque apesar de condicionados a agir assim ou assado, ao escutarmos a advertência do perigo, fingimos que não é com a gente – imagina ? vai dar tudo certo, estou certo. Se o chamado é insistente, ficamos com raiva, resistimos – imagina ? ferir o nosso querido orgulho, abalar nossas profundas crenças – matar ? se é por alá, vamos lá que o paraíso nos espera… Se após milhares de anos, finalmente nos conscientizamos de algo, teimamos – a luz que haviamos ascendido, apagamos: queremos virar para o lado e dormir. Cala a boca. Me deixa, dizemos, enganados, achando que não temos que aprender mais nada, já chega, não enche.

É uma pena.

Comigo mesma, com a minha família, meus parentes e meus amigos vou sempre pagar o preço de buscar maneiras de interessá-los em aprender a viver, abrir a mente, o coração, gostar da vida, de si mesmos, das pessoas, gostar de se encontrar com os outros, de ensinar, de encorajar, de sonhar e de se descobrir totalmente capaz de realizar. E assim, aprendo junto.

Com meus colegas de trabalho e de escola, tenho prontidão pra cooperar dessa maneira, mas com limite. Não desisto, mas não vou insistir mais, deixo para o próximo interessado em ensinar, quem insiste em permanecer desinteressado de aprender, se fecha cheio de si e sai a pisar nos semelhantes, achando que está certo, dispensa questionamentos. Ou pior, quando finge que ouve, responde coisas quem fingem acreditar, mentem pra si mesmos e para os outros, achando que permanecerão no controle de si mesmos apesar da atitude. Queira Deus que sempre que eu estiver fazendo o mesmo por algum motivo, alguém coloque o pé na minha frente pra eu sentir o cheiro do chão e lembrar que sou tão pó como os outros, um ser real – pra quê me enganar e enganar ? pra quê complicar, prolongar a minha ignorância ? pra quê ? Questione. Se não puder promover um consenso, deixe uma pergunta como última palavra da conversa…

Sem ressentimentos, é claro… É engraçado mesmo, olha eu… Ser gente é engraçado. Gente é assim, é pegar ou largar. Se não gostar de gente, é só adotar um cachorro, ou um passarinho, que é mais fácil de cuidar.

Adorei minha aula de hoje da faculdade – longa, chata, com muitos, mas muitos deveres de casa, livros pra ler, pessoas para entrevistar e conhecer, slides pra apresentar. Adorei o desafio do escritório: reestruturação, readaptação, novos parceiros de trabalho. Adorei o desafio do voluntariado, gente que tem preguiça de ler, acha os mediadores um saco, está com raiva da vida, mas tem esperanças..

Adorei que meu amigo tivesse ligado pra me lembrar que almoçaremos juntos amanhã, depois de tanto tempo. Adorei receber um email da minha amiga, me dando a feliz notícia de que estava – enfim – na Índia, trabalhando como voluntária no Médicos sem Fronteira, feliz em ter realizado o seu sonho, servindo as pessoas com seu conhecimento e sua alegria de viver, presentendo as pessoas com a sua curiosidade e paixão pela vida, mente e coração abertos.

Ignorância é a raiz de todo o mal, e que Deus se encarregue de ensinar quando falhamos em aprender e ensinar. Amém.

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