Sua Canção

"Auto-conhecimento."

Foi a resposta que eu dei quando, num evento no escritório sobre gestão de pessoas, perguntaram quais são as características de um líder. O mediador, ocupado com os atributos que influenciavam diretamente o relacionamento entre duas ou mais pessoas, não deu atenção.

Pensei em comentar ao fim da reunião que a auto-observação diminui a distância entre pensar e fazer pois gera a motivação para agir: quem parte de um bom entendimento de si, tem mais chances de fazer um belo trabalho em conjunto com os outros. Mas não mencionei a idéia porque me dei conta, que num grupo de trabalho do escritório, eu não estava conseguindo colocá-la em prática. Sei que nada será perfeito pois cada pessoa está num nível de aprendizado diferente, mas ainda não havia harmonia e resultado suficientes entre nós.

No primeiro telefonema sobre as obrigações do dia, larguei os pensamentos e fui trabalhar. Mas no final do dia, de volta pra casa, percebi que uma das falhas que um líder não pode cometer é deixar de acreditar. Percebi também que muitas vezes a gente pega a idéia e experimenta a sensação de como ela é boa e se entusiasma com a possibilidade de realizá-la, mas a prática, requer um extenso e persistente trabalho íntimo para nos reprogramarmos pra realidade que queremos viver, partindo da atenção com a nossa conduta diária, nosso diálogo interno, prosseguindo com mudanças, correções e prevenções. Desligar o piloto automático dos nossos comportamentos é simples, mas não é fácil, pois não se trata de um clique num botão, se trata de desarticular todo o mecanismo que nos faz agir em contrário ao que nos propomos.

O trabalho de conectar o ideal à realidade quando encontra resistência na concepção ou percepção da idéia, torna tudo bem mais complicado. É a reação cínica diante de colocações sobre mudança de atitude para uma vida melhor, seja pessoal ou profissional. Resistimos com um cinismo bem-humorado ou amargo. Quando bem humorado, o que fica depois é a sensação de ter acabado de rir de uma piada, foi bom e pronto, acabou, aliviou a pressão que o convite à mudança faz. Quando amargo, o sofrimento dobra e consequentemente, a carga – chamamos de desilusão o que na verdade é teimosia cega em repetir a conduta infantil de esperarmos que os outros resolvam os problemas que a gente, na verdade, causa.

Daí me espanta, perceber que muitas vezes a gente escolhe trabalhar carregando o fardo, muitas vezes mais pesado que o nosso próprio corpo, nossa história, além do desgate contínuo de carregar pensamentos e sentimentos pesados, valorizando mais as partes feias da realidade. Preferimos este trabalho braçal, ao que nos fará trabalhar com a cabeça, nos desafiando a agir sob um novo processo que nos impeça de carregar o fardo e produzir outros que, diga-se de passagem,  a gente cria, determinando, em nossos loucos prognósticos, que o futuro há de ser tão ruim quanto o agora.

O que me dói mais é perceber que abrimos mão de prazeres ou sonhos por causa de um trauma. Nos rendemos e passamos a viver lutando contra nós mesmos, revivendo as experiências ruins achando que vão se repetir infinitamente. E vão repetir mesmo, até mudarmos de luta. Pararmos de ir no "contra" e mudarmos de rumo para o "a favor." De nós mesmos. Que pena que daquela vez aconteceu o que não devia. Mas isso não quer dizer que a gente não mereça o que desejou que acontecesse. Bola pra frente, tiro de meta. Pessoalmente, se é pra assumir que sou falível, prefiro ser crédula a ser cínica.

Eu sempre tive muita dificuldade em entender porque algumas tragédias acontecem pra pessoas tão boas, e confesso que quando não acho a pessoa tão boa assim, fico prestes a dizer "Bem-feito". Não digo, mas penso. Sei que certo e errado são relativos e único denominador comum é a ética e a vida, ou seja, tudo o que as ameaça só pode ser mal, perverso. Por muito tempo, fiquei tentando achar explicações, religiosas ou psicológicas, mas, afinal, depois de ter me aventurado a emitir alguns julgamentos desastrados e amadores, cheguei a conclusão que não sei de nada e muito provavelmente, a pessoa está buscando um aprendizado e por isso, cria a situação que melhor se encaixa no que precisa. Ela mesma, sua alma eterna.

Hora da Ophra, fui pra frente da tv com a minha tigela de cereais com leite. Adoro vê-la e ouví-la – seu olhar é franco, seu tom de voz é firme e amoroso, sua dicção é perfeita e sua vibração é imensamente positiva, sai de um coração que crê no bem que há em cada pessoa. Guardo um desejo – agora, não mais secreto – de trabalhar com ela em algum projeto – adoro jornalistas-escritores que buscam vivenciar e comunicar um mundo melhor totalmente possivel e hoje, ela foi minha mestra novamente.

Ela contou algumas histórias e buscava enfatizar o insight que as pessoas traziam para dizer afinal, que nada que venha nos acontecer é tão horrível quanto não poder respirar, pois uma vez vivos, temos total capacidade de mudar o que quer que seja.

Uma sobrevivente de queimadura, que teve o rosto completamente desfigurado, dizia com a mesma alegria de quem exibe um rosto bonito, que embora fisicamente soubesse que não era mais a mesma, dentro de si, sabia que era tão linda quanto a sua melhor lembrança. E pela perda, inevitável dor, não se permitia chorar mais que cinco minutos por dia – pra que passar o resto do seu tempo imersa em desgosto, se tinha escapado do acidente com vida e por isso, ainda dava tempo de viver o que quisesse?

Um sobrevivente de um desastre de avião, ao ver as pessoas sendo carborizadas, percebeu que em torno e se movimentando pra cima, o que chamou de aura, pra uns brilhava mais, outros menos. Para alguém descrente em espiritualidade, a visão não foi uma alucinação, pois do contrário, não teria lhe dado uma constatação tão poderosa e profunda: o brilho mais intenso correspondia a uma vida vivida mais intensamente. Claro que isso não correspondia a bens, sucesso, realizações portentosas, dinheiro, excessos e sim, a ser autêntico, interessado em fazer todo o possível por algo verdadeiro e ser amoroso consigo mesmo e com os outros. Qualquer "coisa" é consequência, positiva ou negativa é, desfrutável, valeu e só.

Um menino que sofria uma doença degenerativa, infelizmente morto aos 12 anos, tinha ido em seu programa aos 9, para passar sua mensagem: ele acreditava, acreditava não: ele sabia que cada pessoa tem, o dom de ser ela mesma, o que ele chamava de a canção do seu coração, a razão pela qual vive, seu propósito último – que a faria estar no centro de todo o Bem, unida com Deus. Ao conhecer esta canção e cantá-la, passa a ser ela mesma, realiza o seu proprósito, atingindo um estado de plena felicidade, ponto onde o pior que acontecer em torno não pode atingir e abalar a certeza íntima de que ela, ainda assim, estará bem.

Antes de morrer, ele deixou um poema mais ou menos assim: "Quando eu morrer quero ser um anjo no céu, uma criança-anjo, um querubim, a ajudar as pessoas a encontrar sua canção."

Eu sou uma sobrevivente e não quero morrer na praia.

Entendi naquele evento, que estou me esforçando, mas ao agir conforme um pensamento ou sentimento de desesperança ou incredulidade, me traio e prejudico outras pessoas. Uma das frases da canção do meu coração é fazer o melhor possível e com amor, contribuir com o melhor que estiver à mão. Também sei que nem sempre o nosso melhor é certo para o momento e para as pessoas em torno, a gente comete erros.

Mas quem busca, encontra. A quem não busca, nada. Nothing comes from nothing. (nada vem do nada).

Talvez o menino anjo esteja aqui comigo, aí com você, tirando uma gaita do bolso e dizendo no seu ouvido: "Meu bem, vamos cantar a sua canção… Agora."

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2 respostas para Sua Canção

  1. Cla disse:

    Quando realizar esse sonho, vê se tem uma "boquinha" prá mim também! Primas unidas em benefício do próximo! Esperantistas da "boca prá dentro" lutando por um mundo melhor.Ou apenas comentário da prima que há pouco assistiu "Amor sem fronteiras"…Beijo!!!

  2. Cla disse:

    Ah! Antes que esqueça: "O monge e o executivo" pode ser uma luzinha – mesmo de velinha de bolo de aniversário – sobre liderança. Tem também um de capa semelhante, com um título que agora não lembro, mas que serve como continuação dele…

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