A árvore e seu céu

Saí do escritório meio tonta, em parte preocupada com a apresentação de um projeto na faculdade que eu faria dali a três horas, em parte, por tudo o que havia acontecido lá nesta última semana.

Competitividade é bom, desde que ocorra entre pessoas que saibam competir. Na versão matar ou morrer, vale tudo e por isso, contuma ser bem sangrento, cheio de golpes abaixo da linha da cintura.

Tive uma conversa bastante amigável com meu chefe sobre parte das situações, porém nada tranquilizadora. Ele tem uma visão e um estilo, a diretoria toda também – quem não se adapta, se estrumbica, me senti prestes a tomar uma buzinada.

Tenho que ser outra pessoa, pensei mais angustiada, depois de enviar uma mensagem pra minha amiga médica, cancelando o nosso jantar porque eu sairia mais tarde do trabalho. Ela me perguntaria: se está sofrendo, o que está fazendo lá? Comecei a pensar, indo pra faculdade naquele dia, o problema não era estar lá. A questão era: por que estou sofrendo?

Na faculdade, apresentei o trabalho, deu tudo certo, mas não me orgulhei. O grupo estava disperso, havia pouco comprometimento e também não tinha me esforçado por influenciá-los a fazer a diferença, tampouco eu o fiz.

Acordei no dia seguinte muito cedo, com uma forte dor de cabeça. A palidez era assustadora, o corpo não respondia. Não, de novo não, pensei tentando resgatar forças pra não sucumbir. Fiquei duas horas mais na cama, racionalizando pra chegar a uma conclusão decisiva que me faria voltar ao comando; até que funcionou, fui para o chuveiro, música, roupa nova pra tomar café na padaria.

Planejei o dia pra passar a roupa, rever a minha contabilidade, ligar pra minha amiga jornalista e marcar um lanche no fim da tarde que ficamos de combinar na semana passada. Mas lembrei que era bom dar um trato no rosto, limpá-lo e saí para a esteticista.

O processo foi dolorido, comecei a chorar. O motivo não era o tratamento, mas sim a mágoa por causa dos ataques do trabalho que feriam a minha dignidade e o meu orgulho. Era tarde pra não achar que não significaram nada e deixar pra lá. Eu tinha que fazer alguma coisa logo, pois além de ficar pior, eu terminaria por atacar outras pessoas. Comecei a perder as forças de novo.

Hora do almoço, fui ao restaurante e pedi estrogonofe e fritas. Fui refletindo em tudo pra entender o que importava de fato, me compreender, me dar uma trégua também. Quase pedi aquela torta de limão que eu adoro, mas caí em mim: prazer de poucos minutos que só aumentaria a minha angústia e o meu peso, e perda, só do controle da situação? Negativo.

Uma coisa impensável num ambiente de negócios é trabalhar, trabalhar e não gerar resultado. Se não trouxe ganho, não é mérito nem destaque, é esforço vão com prejuízo, pois houve gasto sem, no mínimo, compensação.

Quando um trabalho só depende de você, suas chances de chegar ao resultado são boas. Quando depende de mais gente, as chances são excelentes ou ameaçadoras. Ameaçadoras porque se a equipe é fraca, alguém tem que ser um líder forte – se não tem, é perda total. Se a equipe é forte e o líder é fraco ou não há, é perda total também. Trabalho sem ganho. Inútil.

Liderança. Regredi?, pensei quase em prantos, deprimida. Pra que tanta facilidade para conceber idéias e entender o jogo quando há tanta dificuldade em executá-las e torná-las frutíferas? O fato é que se acreditamos, influenciamos e realizamos. No momento em que comecei a acreditar mais em mim, os problemas dobraram rapidamente e então, perdi a confiança de novo. Dei uma olhada pra trás, eu não tinha tomado posse das oportunidades que surgiram e as perdas foram tão graduais e discretas que eu não tinha percebido. A ansiedade causada pelo temor de perdas futuras surgiu novamente.

Busquei me auto-avaliar e me conscientizei da situação. Cenário mediocre e preocupante. O desempenho da minha área não condiz com o seu potencial e com a minha visão. Em parte pelas dificuldades inerentes aos cenários e ao ambiente onde trabalhamos, em parte por falta de liderança, de uma vontade vigorosa, um pulso firme, confiança. Era hora de parar de justificar os cenários, os estilos alheios, o ambiente (a justificativa pessoa-certa-no-lugar-errado é arriscada porque me faz fechar os olhos pra outros problemas que não tem relação com os conflitos em redor.).

Embora eu tivesse uma aspiração de carreira ligada à comunicação, a minha carreira atual em administração não era um martírio pra mim. Acho que sem essa escola eu não perceberia a importãncia da consistência entre as informações, do pragmatismo das idéias, da firmeza de postura e de opinião – estar ali, é um terreno de oportunidades para o meu crescimento, especialmente de inteligência operacional, ou seja, a capacidade de fazer uma idéia funcionar. Logo, se eu pensasse em trocar de empresa, cometeria os mesmos erros em outra.

Fui dar uma volta na livraria, encontrei o livro O ciclo da auto-sabotagem, na seção de psicologia. Era um livro que falava de exemplos e falava numa liguagem simples ao terapeuta e ao paciente sobre as atitudes repetitivas-destrutivas que tomamos por causa de traumas que sofremos. Depois da tomada de consciência do mecanismo, era necessário , desenvolver ferramentas nos recursos internos pra suspendê-lo e este processo, que pode se iniciar na leitura de um livro, se conclui com vivências, especialmente as que ocorrem em terapia. Hora de voltar para a análise, a operação "jogar-cascas-de-bananas-1-metro-adiante-de-cada-pequena-decisão" deveria ser desativada.

Coloquei o livro de volta na estante, uma moça olhou meu cachecol e o elogiou, perguntando se era linha ou lã. Jamais pensei que alguém com uma bolsa Prada e um sapato Laboutin se interessasse por um cachecol artesanal, mas fiquei satisfeita: algo meu, não necessáriamente de qualidade técnica irrepreensível, tinha causado admiração. Eu não o fiz, mas acreditei na sua beleza e no belo conjunto que faria com a minha. Deu certo.

Fim do dia, hora de voltar pra casa, passei no café do Conjunto Nacional, em frente a uma exposição de fotografias, organizada por Luiz Carlos Felizardo, chamada O Sonho e a Ruína, que trazia fotos do sitio arqueológico de São Miguel Arcanjo, uma redução (mosteiro ou igreja de missão, com expansão para atividades urbanas e rurais) em ruínas, em São Miguel das Missões – RS.

Imagens do esplendor devastado, paredes de pedras areníticas continuavam tentando resistir ao tempo e ao crescimento das árvores. Uma das fotos me atingiu em cheio. Era um close de uma grande raiz de árvore, nascendo entremeada naquelas pedras da ruína, se esgueirando de lado pra subir e ganhar as alturas. A emoção veio à tona novamente, chorei.

Era a vida rompendo a dureza do mundo, não importava se brotasse em solo hostil: enquanto crescia, ocupava o mínimo espaço, ora quebrando as pedras, ora as contornando. A árvore teria sido mais bela e frondosa dentre todas se tivesse nascido em solo fértil, adequado, com espaço? Acho que não, ela se deforma um pouco na base, mas não perde a altura, nem o viço, as cores, a seiva e as folhas e flores.

Aliás, eu nunca soube de uma árvore vencida pelo concreto e sim, do contrário. Na minha infãncia, quantas vezes ouvi, temos que derrubar a árvore pois ela está destruindo a calçada e quebrando os fios de energia elétrica. E eu, sempre tinha vontade de perguntar: "Por que não transplanta? Pra que derrubar?"

A vida é mais forte. Quando parece que não há saída, surge uma, mínima, por onde se esgueira, em busca do campo aberto, do horizonte, do céu. Quando parece ter morrido, se arruinado, o sonho irrompe, alcança o alto e se realiza.

No programa da exposição, estava lá a foto da árvore. Pensei em colocá-la num quadro e ao imaginá-lo, lembrei de uma canção interpretada pela Maria Bethania – não me lembro o nome e pensei em escrever no rodapé do quadro: "Sonhar o sonho impossível, brotar do impossível chão.".

Chegando em casa, comprei umas frutas no caminho e montei minha sobremesa: figo e ricota regados com mel e a saboreei ao som de outra de minhas canções preferidas: Suite nº 4 para Violoncelo de Bach, tocado por Antonio Meneses,

Dói, mas é muito bom ter a coragem de reconhecer a nossa responsabilidade nas coisas que deram errado. Sem tomar consciência não tem como tomar decisão. Essa é a ponte que liga o conceito à experiência.

Mais uma jornada se inicia. Quero ser uma pessoa mais simples e fazer o que houver pra ser feito.

Nada, além de si mesmo, impede alguém de atingir o seu céu. Vou cumprir a minha natureza e ser quem eu sou.

Minha função é existir, vida em movimento, experiência, harmonia e evolução.

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