Simples, pequeno e inestimável milagre

A gente costuma acreditar nas coisas duvidando um pouquinho, só pra não ficar com aquela sensação de que as orelhas tocam o chão por ter acreditado tanto. Mas depois aprende, que na hora de agir, não dá pra confiar desconfiando, é decisão com risco, é ou não é. Esses momentos decisivos são os que ocorrem quando a gente simplesmente pega a bolsa e sai de casa pra trabalhar ou caminhar um pouco.

Fui atrás do CD que faltava pra gravar a trilha sonora do Jantar pra Um que minha prima pediu. Eu nem ia, mas no meu ouvido tinha um sussurrar constante: Faith of the heart, Faith of the heart, Faith of the heart. Aquela canção do Rod Stuart que está na trilha sonora do filme do Patch Adams, que nos dá um toque que a vida pode ser tudo o que sonhamos, desde que a gente se assuma, se cuide, se ame.

Achei o CD naquela loja que tem tudo, tem até um dono que atende com paciência, simpatia e gentileza, mas vibra mais com quem vai lá atrás de umas bandas, uns cantores de quem eu nunca vi falar, uns novíssimos em folha, outros, raridade mesmo. Tudo o que ele compra está espalhado por toda a parte, faz parte do clima, digamos, musical. Se não tem lá, no meio dos milhares de CD’s, não tem problema, ele manda trazer seja de onde for. Adoro.

Resolvi passar na livraria pra dar um passeio, namorar de novo aquele novo livro do Jamie Oliver, A Revolução na Cozinha, um grande movimento iniciado por ele pra ensinar os ingleses a comer melhor, programa que passou no GNT há algumas semanas. Tudo o que o Jamie produz tem uma riqueza de cores, passa um calor, uma alegria, um sabor, uma vida. Os livros parecem um diário pessoal de um artista – ah, sim, ele é mesmo – mas não um intelectual chato ou acadêmico eca, mas uma pessoa como nós contando a história de experiências que nos servem também pra viver melhor.

Depois do último suspiro antes da despedida – não, não dá pra comprar agora – fui dar mais um passeio antes de voltar pra casa. Literatura estrangeira, nacional, administração, editora Zahar. Há algumas semanas eu tive um momento "o mundo parou" olhando uma sacola da Zahar em casa, ouvindo um sussurro "Vem cá." Deduzi que poderia ser minha entrada numa grande editora, euzinha da silva. Mas olhei o site, nenhum livro de ficção é editado. Aliás, tem até um aviso do tipo, se você quer mandar um "escrito não solicitado" para avaliação, verifique se o tema se encaixa dentre os temas de não-ficcção. Se você insistir em não seguir a recomendação, será ignorado. Rude, não? "Me enganei", pensei, o que eu tenho que ver com essa editora, afinal, estou bem longe de escrever sobre um assunto de não-ficção com propriedade, com conhecimento destacado.Apesar da decepção, não consegui derrubar o "Vem cá". Parecia ter, ainda, todo o sentido.

Na livraria, depois de namorar o livro do Jamie, vi de longe, perto dos pufes coloridos, dentre as novas publicações, uma capa listrada, nas tonalidades de cores que eu gosto, que me confortam. Na capa, o título: Para ler como um escritor – Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los, escrito por uma professora de literatura e criação literária das universidades de Harvard e Columbia, Francine Prose, recomendado pelo New York Times, etc. Geralmente eu leio as orelhas, um pedaço da introdução, algumas páginas do meio, mas não consegui fazer isso. Pensei que não precisava do livro naquele momento, nem adiantava tentar me encantar. Então, o coloquei de volta na prateleira. Mas meus olhos voaram pra cima daquele logo: Editora Zahar. Abri com ansiedade o livro em qualquer página e fui parar na introdução, onde a escritora nos diz:

"Leio minuciosamente, palavra por palavra, frase por frase, ponderando cada aparentemente mínima decisão tomada pelo escritor. E embora seja impossível recordar todas as fontes de inspiração e instrução, posso lembrar os romances e contos que me pareceram revelações: poços de beleza e prazer que eram também livros didáticos, aulas particulares da arte da ficção. Este livro pretende ser em parte uma resposta a esta pergunta inevitável sobre como os escritores aprendem a fazer algo que não pode ser ensinado."

Páginas, páginas, difícil parar, difícil desviar a atenção, difícil perceber o que se passa ou ouve em volta. A linguagem que ela usa é a mesma com a qual sonho escrever. Fui sentindo uma confiança, uma alegria e ao mesmo tempo, uma serenidade, lembrei da canção Faith of the heart. Decidi seguir o chamado e fui pra Zahar: comprei o livro e senti uma satisfação tão grande, que mesmo tendo somente almoçado e não tendo encontrado nenhum dos meus amigos ou das minhas esperanças naquele dia, àquela hora, oito horas da noite, não tive fome de nada.

Era a constatação de que é poderoso criar um vínculo com quem você é de verdade e na hora de agir, continuar acreditando.

Na hora da rotina, continuar sustentando, erguido, o nosso desejo último de realizar aquilo que mais sonhamos, faz toda a diferença e aí tenho a prova de que o universo conspira a favor de quem sustenta em si, via coração e atitude, seu sonho com tanto empenho.

Tenho também a prova de que tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus, que hoje entendo, diz o tempo todo pra sermos sinceros com quem somos, com o que aspiramos, com o que nos comprometemos. Acredito que Ele é o fiel guardião da essência verdadeira de cada alma e do ponto nela mesma, onde seus anseios se realizam plenamente.

"I got faith to believe".

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Uma resposta para Simples, pequeno e inestimável milagre

  1. Cla disse:

    Só não pensava que ia se dar o trabalho de ir comprar cd por causa de um pedido bobo com base numa trilha linda…Tem cabimento uma coisa dessas???A propósito, vou dar uma olhada nesse livro também…

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