Gratia Plena

Certo dia, daqueles em que paramos pra constatar que nos ocorreu todo o tipo de males e perguntamos a nós mesmos: falta mais o quê? percebi que havia entrado num cenário hostil e solitário e nada pior do que perceber o inimigo interno, tentando nos empurrar pra vala, doido pra jogar a pá de cal.

Ficar sem condição de discernir o que é o nosso coração falando, Deus, ou o inimigo, emudece e causa dentro da gente, uma escuridão e um silêncio de vácuo, que acho que só um túmulo tem. Não se vê nada, não se ouve nada, não se respira.

Na família, reveses de sorte; com alguns amigos reveses, no escritório, reveses com colegas e com meu chefe, que tomou uma daquelas atitudes que só chefes explicam, mas eles nunca explicarão. Daquelas atitudes que parecem visar nos dar uma lição ou um recado e consequentemente, nos constrange e humilha. Nao se fui altiva e arrogante ou vitima de um plano, um incidente doloso ou era a minha percepção pessimista e dramática. Fui pra faculdade, e dali para o meu fim de semana, como quem vai carregado morto numa caixa. Silêncio absoluto, falta de fome, de luz, de vontade e de ar.

Não, não vou contar o que aconteceu, são coisas de escritório que nos fazem pensar que a vida vale mais e por isso, da mesma forma que é certo pensar que onde há dor, há vida, como um raiozinho de luz, tive uma reação minima, ao me perguntar: " O que está acontecendo? Onde foi que eu parei e porquê?"

Me reuni com algumas amigas pra planejar o aniversário de uma delas de manhã e tudo foi muito animado, a agitação social faz bem, anima. Animada, ao lembrar de ir buscar umas roupas no conserto, decidi fazer da tarefa, um passeio. Um passeio, "sem esperança e sem sonho nenhum", lembrei da canção Noite de Paz, de Dolores Duran:

"Da-me senhor uma noite sem pensar,

dá-me senhor, uma noite bem comum,

uma noite em que eu possa descansar,

sem esperança e sem sonho nenhum.

Por uma só noite assim, posso trocar,

pelo que eu tiver de mais puro e mais sincero,

uma só noite de paz, pra não lembrar,

do que eu não devia esperar e ainda espero."

Senti um desânimo e quase desisti de ir, me desviei do espelho e fui ver os emails. Uma agência de modelos me pedia desculpas, mas havia visto uma foto minha na internet e se disse muito interessada no meu retorno pois um tinha um trabalho pra oferecer. Veja o video da nossa agência no YouTube, dizia, e me ligue, por favor. Vi o vídeo, o site, parecia tudo profissional, de alto padrão. Embora as fotos fossem de homens, mulheres e crianças no padrão SP Fashion Week – pessoas belas, mas de manequins etíopes, uma nota dizia que selecionavam modelos com um padrão próprio que talvez se encaixassem em campanhas específicas.Verdade ou mentira, golpe de sorte ou de azar – eu modelo? é ruim, hein? sequer na infância, no colégio, fui miss capirinha – foi um carinho na minha auto-estima. Deletei o email e fui me arrumar para o passeio.

Coloquei uma roupinha com um pouco de brilho, um sapatinho de salto combinando, uma maquiagem para deixar a expressão mais leve, esconder as olheiras e a apatia. Perfume, brincos de argola. Até que fiquei bonitinha, nem pensei que iria me arrumar tanto.

Saí. Luzes, gente, barulhinho de música e conversa. Eu estava leve, mas dentro de mim, ainda o vácuo. Peguei minhas roupas e me atrevi a entrar numa loja para experimentar outras. Além de um raiozinho de luz, um som: "Hum, que bonitinha, tô chegando lá…" disse pra mim mesma sorrindo diante do espelho.

Entrei numa livraria e pensei em tomar um café preguiçosamente sentada num daqueles sofás fofos. Mas antes, me deu uma vontade: seguir o conselho da minha querida prima, sucessora natural da minha tia amável nas reconciliações com Deus e comprei o primeiro da trilogia Conversando com Deus, de Neale D Walsch. Café, sofazinho e primeira leitura.

Depois de algumas páginas, fechei o livro, alguns adolescentes eufóricos sentaram próximos, não consegui continuar a leitura. Mas, continuando o café e olhando adiante, para o além, meditei, fiquei cheia sentimentos de alegria outra vez, mas com uma novidade: fiquei cheia também de pensamentos sem palavras e imagens, que tentavam formar uma composição na minha cabeça.

O impacto que eu senti foi um voltar à vida de um reanimado por desfribiladores. A idéia era simples e grandiosa ao mesmo tempo: Deus se revela por meio de uma experiência interna e não por uma externa que poderia ser vista. Da mesma forma, o que ansiamos não pode ser pedido pois estamos buscando algo que não vemos. O que queremos existe dentro de nós e portanto, a melhor maneira de experimentá-los na realidade, é orar sem suplicar – pois afirma a falta do que se pede. Orar para afirmar a presença do que queremos `e a melhor maneira de se fazer isso, dizia Deus na sua conversa o autor, era agradecendo. E como agradecer sem pensar que é um faz-de-conta? Acreditando com confiança que o que vive dentro de nós, será vivido na nossa realidade.

Nenhuma palavra pode mobilizar o entendimento de forma tão perfeita quanto as experiências da vida. Por isso, meu diálogo interno e com Deus parou nas semanas que vivi: o que estava acontecendo, era o reflexo das minhas faltas e ao mesmo tempo, uma razão que só Deus entende, a me conduzir pra essa constatação que me libertaria finalmente do último nó de insegurança e falta de confiança.

Deus dizia, "Eu falo, vocês é que não me escutam." E realmente, os recados mais contundentes que recebi, que me chamavam pra lutar por mim, foi: "Acredita".

E acreditar é uma atitude de fé, afirmativa, sem delongas e conversas moles, sem euforia inconsequente e iludida, sem sandice. Acreditar é ver o que há dentro e sustentar até que se veja fora e enfim. É a fé que não é, portanto, uma espera, mas uma constatação que constrói fora, a realidade que se vive dentro.

Saí, ouvindo todos os sons da minha vida, mas continuei muda. Passando em frente a uma loja de discos, ouvi Ave Maria cantada por Andrea Boccelli, que canta lindamente sobre tudo o que vê.

Ave Maria
Gratia plena
Maria, gratia plena
Maria, gratia plena
Ave, ave dominus
Dominus tecum
Benedicta tu in mulieribus
Et benedictus
Et benedictus fructus ventris
Ventris tuae, Jesus.

Senti alegria e amor ao mesmo tempo. Também a triste constatação de que o que realmente me separou daqueles que eu amo, com quem eu quero experimentar a vida com felicidade, foi a falta dessa fé, pois a Deus, não interessa impedir nada que faça seus filhos felizes, pois Ele é bom. Agora sim, eles estão aqui comigo, não estamos mais separados. Obrigada, meu bom Deus e aos seus anjos amáveis, por meio das atitudes de quem você me fala também.

Gratia plena. Graça absoluta. Grati-a. Grati-dão.

Deus é uma mãe pra mim, só fechando mesmo a minha matraca pra conseguir ouví-lo melhor e, finalmente, viver bem.

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2 respostas para Gratia Plena

  1. Cla disse:

    Começou a captar o que queria te dizer, hein?Eu também estava muito mal e esses livros me fazem reerguer.Também fui muito humilhada, me sentindo um lixo, mas lembrei que se Deus não nos julga nem se ofende, porque eu deveria fazê-lo? Ainda dói. Ainda não quero falar sobre o assunto com as ditas pessoas. mas no Livro 3, diz que "Trair a si mesmo para não trair a outra pessoa, não deixa de ser uma traição. A maior delas". O brilho que tinha na realização da tarefa em questão apagou-se, mas a fonte (eu) continua lá, pronta para brilhar de novo, quando os outros estiverem prontos para a intensidade do brilho. Num Programa na tv hoje, estavam explicando a idèia do "dar a outra face diante de uma ofensa": nâo è dar a outra face do rosto mas a face interna exercitando o perdão(do latim per+doni = dar além), ou seja, dando mais ao outro do que ele nos deu (não agindo como ele). Básico, né? E nós simplesmente esquecemos…

  2. Cla disse:

    Não sei se fico feliz ou apreensiva em ser vista como a sucessora da minha mãe…Quer dizer que além de herdar os livros, vou herdar a parentada também?! Ai Jisuis!!!!

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