Razão não é preciso, motivo é preciso

É gostoso ver a casa limpa, mas limpar uma casa, não é, exceto quando você decide limpar para meditar, mentalizando o mantra de Caetano Veloso: inspira: do sujo… Expira: para o limpo… inspira: do sujo… expira: para o limpo… inspira… expira…

A faxina é um body combat, deixa a gente com o corpo moído. Recusei um cinema com duas amigas e passei o sábado à noite deitada no chão, com as pernas no sofá, pra desentortar. Sucos e sopas – pra não ter o trabalho de mastigar, tv, ruminações. Programão.

Programas e reprises de shows americanos. Ah, aquele casal que ganhou de presente uma viagem pra Paris com a família e, – supresa! – o programa lhe deu de presente a cerimônia, as vestes e a festa de casamento. Tão apaixonados… emocionados e cheios de romantismo. Parecia verdadeiro, me emocionei de novo. Ok, Deus, vou confiar em você, tudo tem sua hora, muito legal da sua parte reprisar o programa quando decidi ficar em casa.

Felizmente a minha geladeira estava saudável, pois numa ânsia repentina por doces, o máximo que encontrei foram iogurtes diet. Mas a ânsia repentina, foi na verdade uma ânsia por sair do tédio em que eu estava. Como não fiz nada de interessante pra me salvar, cai em tristezas, devorei três potinhos, fiquei aborrecida, envelheci cem anos, mais um pouco eu resmungava: "Deus se esqueceu de me levar". Enfim, hiper baixo astral.

Não estava a fim de fazer tarefas e eu tinha várias: levar o lixo, terminar de ler um livro, fazer alguns relatórios, passar a roupa. Procurei distração na internet, mas não achei nada, comecei a ficar cansada de tanto pensar em coisas tortas. A TV ligada, era como se não estivesse até que veio o chamado sobre o programa Roda Viva. Não prestei atenção na programação, e sim, na lembrança do dia em que houve a entrevista com Samantha Power, jornalista, a ex-assessora de Relações Internacionais de Barack Obama e biógrada de Sérgio Vieira de Melo, diplomata brasileiro, cujo trabalho me inspirou tanto, pessoalmente, a manter vivas todas as esperanças que eu tivesse pois era isso, ou nada de realizar o que eu sonhava, pois ter esperança – esperança viva, não morta – faz toda a diferença mesmo, eu já havia provado.

Sabe quando ocorre o instante em que seu olhar fixa algum ponto qualquer mas não o vê pois o seu foco de atenção está além? Sabe quando ocorre, o contrário: vê algo que parece falar com você e tudo o mais em volta fica quieto, pois uma divindade falou? "Querida, isso se chama se apaixonar, esqueceu?", disse minha amiga desligando o telefone em seguida pois estava saindo com o seu novo namorado.

Foi o que me aconteceu quando vi a chamada na TV. O momento "o mundo parou" acontecendo de novo. O mesmo acontecera em agosto passado, diante do anúncio da Bienal do Livro, a relutância em ir e toda a esperança que me trouxe estar ali, ouví-la, falar com ela e ler sua obra. Lembrei-me de todas as vezes em que tive uma experiência assim, se eu seguia a intuição até o fim, geralmente encontrava uma descoberta incrível que me abria portas, o coração, a consciência ou todos. Fiquei feliz de novo, apesar dos pesares.

Levantei para recolher o lixo da despensa, ascendi a luz e de novo o instante "o mundo parou": a sacola pendurada na minha frente, ali há semanas, servindo de puxa-saco, era da Editora Zahar, que parecia me dizer: "Vem cá.". Quantas vezes eu olhava aquela sacola ali, sem vê-la?

Fiquei ligada na mensagem por alguns minutos, mas como o mundo voltasse a girar, me repreendi. Velha num sábado à noite, certamente fiquei senil: estou achando que uma editora desse porte se interessaria por uma escritora como eu, de minúsculo porte. "Vem cá.", parecia ouvir novamente. Realmente, senilidade ou o efeito alucinógino de uma quase overdose de iogurtes diet.

A campainha tocou, algumas cartas apareceram debaixo da porta e uma das minhas revistas favoritas chegara. "Ufa, contato com o mundo real!", pensei rasgando a embalagem e me deparando com o tema do mês: "Auto-sabotagem."

A repetitiva atitude que nos prejudica, chamada autoboicote, começava a explicar a matéria, podia ser exemplificada no dia em que a fúria do jogador francês Zidane contra o jogador italiano Materazzina na copa de 2006, causou sua expulsão, a perda do capeonato e o fim da carreira. Todo o ser humano tem em si um time inteiro que joga contra, dizia o artigo, e naturalmente o próximo passo pra não perder as jogadas é querer ver, se conscientizar e lidar. Para lidar, atitude firme para mudar, sair das repetições e inovar, pois não bastaria decidir que é preciso virar o jogo, seria preciso trabalhar duro nas nossas crenças e emoções negativas que, então, "treinam" o nosso time do contra interno, em regime de concentração pré-olímpico: se estamos começando a nos sentir felizes por algo ou prestes a realizar algo importante pra nós, vem o time e derruba o momento, virando o placar contra. Mas por outro lado, o autoboicote poderia ser positivo, pois nos alertaria sobre algo prejudicial pra nós também, explicando por fim, que " o ciclo da auto-sabotagem se instaura porque o nosso subconsciente quer chamar atenção para as razões mais profundas que motivam nossas ações." Só lidando consigo mesmo pra saber a diferença em cada situação.

Concordei e percebi, é uma mistura de negatividade, com comodismo. Pra-que-fazer-diferente-se-não-está-tão-ruim-e-se-eu-tentar,-vai-que-dá-mais-errado-ainda-pois-não-mereço-o-que-eu-quero? Uma atitude nova e vigorosa dá muito trabalho, dá desconforto, dá medo, mas é ação necessária depois da tomada de consciência. E não há tomada de consciência se a gente não se submete ao incômodo de se questionar. Quando está tudo ruim e a gente não se questiona, se justifica. Quando se justifica, acha um culpado ou um herói pra dizer "fulano é capaz ou tem tal coisa, eu não", e daí chafurda na vida de sempre, "ó ceus, ó azar", como a chafurdar no sofá em frente à TV, na cama pra dormir mais um tanto, na cadeira do escritório fazendo o mais do mesmo e assim por diante.

Comecei a me questionar e praticamente em todas as áreas da minha vida preciso de uma atitude nova e vigorosa. Pra quê? pensei. Qual é o meu motivo?

Não preciso de uma boa razão pra dar o próximo passo para os caminhos que me farão feliz, mas de bons motivos, como, por exemplo, me ver realizada neste e naquele plano e ser uma fonte de estimulo para que os outros se realizem.

É bem trabalhoso, mas sei que o trabalho fica menos pesado se eu descomplicar as coisas, dando importância só ao que vai agregar, afinal uma cidadã comum, com aspirações e dons como todos, tem, como todos, a mesma mania de se autoboicotar pra não viver aquilo que me faz única.

Pra bater na porta da Zahar, não preciso de uma boa razão; preciso de um bom trabalho, motivado pelo que sou. Se eu receber um não, chegar até ali me levará a mais um degrau de aprendizado e consciência, e certamente, a pessoas e lugares novos que eu sequer imagino agora. É preciso audácia, e ter certas esperanças é realmente uma audácia, diz Obama, Sérgio e Samantha.

Peguei o controle da TV para desligá-la quando passava um depoimento de uma família a respeito de alguém que eles tinham perdido para o câncer. Eles diziam emocionados, que uma das coisas que ele costuma dizer depois da doença é exatamente uma das que mais preciso considerar neste momento: "Há muito em que pensar e pouco em que se preocupar." Pensar em nada que me detenha e em tudo o que me leve a agir, pronta para errar se for preciso. Preciso viver.

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Uma resposta para Razão não é preciso, motivo é preciso

  1. Cla disse:

    Cá entre nós: você precisa mesmo ler os livros de Neale Donald Walsch, a começar pelos três volumes de "Conversando com Deus".Quanto ao Meu texto, a idéia é contar o olhar dos outros e depois, na hora do "Fundamento de Esperanto", dar o meu olhar, minha "atração" e contar uns certos detalhes sobre a vida de Zamenhof que a sua humildade não permitiu, mas é caso sabido…Grande Beijo!

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