O passeio das nuvens

Na abertura dos episódios de Sex and the City, a heroína principal da série, Carrie, aparece caminhando pelas ruas de Nova York toda cheia de si, no seu vestidinho rosa, a desfilar sua bela, loira e elegante magreza, com aquela expressão de mulher bem sucedida, graças a Deus e a ela mesma. De repente, um ônibus passa ao lado, por cima de uma poça d’agua suja e dá um banho nela. Isso não a acontece só na ficcção. A vida também diz: " Menos, minha filha."

A segunda-feira que eu estava doida pra que chegasse, pra que eu colocasse em ação meus super poderes e minhas super idéias, foi realmente um fênomeno. Daqueles de Natureza. Catastrófico. O epicentro do tremor quase 8.0 na escala Richter era eu mesma.

Á tarde, no escritório, recebi a ligação de um dos gerentes de negócios, furioso pois eu havia feito uma besteira espetacular ao administrar o recurso de um dos seus clientes. Investi mal, perdi uma quantia razoável. Mesmo tendo parado pra pensar nos riscos, não refleti o suficiente: achei, por fim, que tudo caminharia bem conforme a minha decisão – a escolha certa ambos, lógico que ganharíamos. Fui no embalo da euforia, não consultei ninguém mais sábio e cabum: perda.

Ao dimensionar o prejuízo e calcular o esforço de recuperação, cheguei a conclusão que fiz mais mal a mim do que ao cliente. Tudo podia ser recuperado, menos o constrangimento de explicar a tolice para o cliente, que rico de marré-marré, esboçou aborrecimento, mas foi firme ao determinar que, sendo um problema nosso, não registraria perda. Ressarcimos. Ou melhor, eu ressarci, com o meu tempo, minha remuneração, ambos a longo a prazo – trabalhar mais, cortar gastos pessoais. Por fim, ainda ficou uma sombra pairando na minha cabeça: qual seria a percepção do diretor executivo sobre o fato? Se fosse a pior, iria se consumar a tragédia: o cliente trazido por ele, deveria ser tratado com um zelo e eficiência perfeita, e por fim, como desfecho da avaliação para a decisão final: uma gerente que não sabe fazer uma operação básica, um raciocínio básico, está mostrando que não sabe administrar a si mesma, toma decisões irrefletidas, e portanto, é um risco pesado, não pode administrar nada.

Até encaminharmos a situação, foram dias de pensamentos angustiantes: "vou perder o emprego", "quem aprovou a operação vai perder o emprego", "vou ter um colapso financeiro", "sou uma fraude", "que esperança, que vontade, que nada", "é o fim".

Foi a dieta mais eficaz que fiz: em uma semana, perdi dois quilos. Das terapias, também a mais eficaz: ninguém é perfeito mesmo: "everybody hurts and everybody falls, sometimes" – (todo mundo fere, tudo mundo falha, às vezes) .

Constatar que nem sempre meus ideais ou planos se realizarão, foi frustrante: da mesma forma que poderia habitar em em mim o gênio mais brilhante capaz de produzir bens de inestimável valor, também moraria um idiota, que literalmente põe tudo a perder, e muitas vezes para os outros também. Antes eu achava que qualquer grande erro, era resultante de auto sabotagem, isolamento ou pontos cegos no entendimento, ambos curados com análise, lazer-trabalho e educação. Agora, não tenho outra alternativa senão pensar que, independente disso, a gente faz besteira mesmo.

Também pensei que, na verdade, fazer besteira pra mim era fácil, pois não sou bem educada – me faltaram boas escolas, boa formação. Também não sou alguém sem necessidades básicas a satisfazer, sob o ponto de vista de Maslow. Não me resta apenas atender à necessidade de auto-realização, sou comum, massa. E agora sei, que mesmo que eu me esforce, atenda as minhas necessidades de realização e educação, mesmo que eu tenha, nos amigos e familiares, o suporte afetivo e conselheiro de primeira, vou cometar grandes besteiras, do tipo "eu não acredito que fiz isso.", e, quem sabe, pior:" eu não acredito que fiz isso, de novo."

Na semana seguinte, fiquei muda, imersa nos mais sombrios pensamentos, em busca de explicações e atenta pra reorganizar meus compromissos. Pequenos tremores, pequenas consequências, ajusta aqui-ali, resolvido, mas fica a marca, a mancha. A fissura na superfície lisa fica sem conserto. Foi sofrido. Perdi mais dois quilos na semana seguinte, mas entendi algumas coisas.

Na academia, a instrutora de ginástica resolveu quebrar a rotina do circuito e inventou uma brincadeira, embaixadinhas com bexigas por 30 segundos, bexigas pretas. Me vi dando embaixadinhas com as minhas sombras. Entrei na brincadeira para não parecer anti-social, mas não me diverti. Antes fosse se as consequências que eu enfrentava ou os erros que eu cometia fossem tão leves quanto as bexigas e tão fáceis de eliminar. Já pensou? Uma espetadinha e bum! problemas resolvidos e os restos da borracha, no lixo.

Nesse dia, voltei pra casa e ainda era cedo, o sol entrava pela janela e deixava uma marca de luz no chão. Tomei um banho e me deitei um pouco, antes de sair para o escritório. A cabeça estava pesada, mas àquela altura, eu já estava conformada. Fiquei olhando a marca de luz. Ora era intensa e desenhava o contorno da janela, ora era fraca, e deixava um borrão. Fiquei um tempão olhando, sem pensar em nada, depois olhei pra fora da janela. Havia nuvens no céu, que passeavam, tranquilas. Quando passavam em frente ao sol, borrão no chão, quando saíam, desenho nítido.

Quando as nuvens passeavam em frente ao sol, elas também nublavam meus pensamentos, minha cabeça parecia oca, sentia o impulso do corpo dizendo, é hora de trabalhar.

Quando as nuvens saíam e a luz forte realçava a presença das coisas e seus contornos, lembrei de outros problemas, outros fatos desfavoráveis, vários deles em torno de mim, como almas clamando solução, umas que cabiam a mim dar, outras não. Lembrar deles é difícil, pois ao indicar o nível dos meus limites e enganos, revela tendências de um futuro pobre em todos os sentidos.

Mas também lembrei das minhas conquistas e sucessos. Lembrar deles também é difícil pois me incomodam para sair do lugar e ir pra adiante, para o novo e desconhecido, onde não há garantias de sucesso, só possibilidades.

* * *

Quando cheguei no escritório, encontrei uma nota deixada em minha mesa por uma das gerentes de marketing, elogiando um comentário que deixei num um fórum interno a respeito de missão e metas. "Alto nível! Parabéns! Vamos almoçar.", dizia o bilhete. Em seguida, meu chefe me chamava para elogiar o trabalho de equipe que vinhamos fazendo, e também as contribuições que eu costumo fazer ao participar das discussões institucionais. Tudo ótimo, mas não fiquei entusiasmada, eu trocaria de bom grado estes elogios e contibuições, pelo sucesso do investimento. Estranhamente fiquei mais confortada, quando, mais tarde na faculdade, um dos meus colegas de turma me atirou um desabafo em relação a um feedback que dei. Minha reação foi chamar sua atenção sobre a continuidade do seu projeto. Não respondi ao comentário, pois comecei a ter dúvidas.

Não fiquei mais desmotivada pelo comportamento dele ou pela minha atitude porque, compreendi, que infelizmente, nossa disposição para entender e para superar dificuldades ou desafios, não nos levará, ncessariamente, ao entendimento e à superação.

Se persistirmos, talvez. Se também tivermos fé… hum… talvez. Fiquei cética, especialmente porque me lembrei de Deus e das orações que eu vinha fazendo nas últimas semanas, pedindo para que me desse sabedoria pra viver, trabalhar. E em momentos cruciais, não tive. Talvez com as equipes de trabalho e faculdade também. A sabedoria me levaria a refletir mais e buscar mais ajuda até, finalmente, fazer a escolha certa. O que houve?

"Estou emprestando este livro para as pessoas que eu gosto; trouxe pra você, quer ler?" Perguntou uma das minhas colegas do escritório. "A Cabana? Suspense?" "Não, respondeu ela rindo, leia o resumo", disse saindo. Tratava de uma experiência que a personagem tinha que respondia suas perguntas sobre a aparente indiferença de Deus quando nos acontece algo muito ruim. Não faria mal ler, então comecei, enquanto, já na faculdade, esperávamos o professor chegar.

A partir de uma tragédia familiar, a personagem tratava os motivos do acontecimento pessoalmente com Deus, que lhe respondia, através de um convívio familiar entre Ele, Jesus e o Espírito Santo numa cabana, com alegres e carinhosas conversas às mesas de refeições e passeios que lhe ajudavam a lidar com suas emoções e paradigmas.

Li, dentre outras idéias interessantes, que por sermos seres é inerente a nós o amor e a vivência de toda a nossa plenitude por meio de relacionamentos e não por via de regras.

Os relacionamentos são mais complexos que as regras e por isso, são os que nos levam às respostas mais profundas sobre quem somos, o que está nos acontecendo e para onde vamos, capaz, portanto, de não excluir as questões que a nossa diversidade de personalidade e história trazem.

As regras, consequentemente, criam uma relação tão simples com as coisas e com as pessoas, que tendemos a agir de forma perfeccionista e consequentemente, preconceituosa, exclusiva, cheios de expectativas e noções de responsabilidades que nos impulsionam por obrigação e não por amor, nos enchendo de culpa, vergonha e julgamento. Nos relacionamentos sim, portanto, ao invés de expectativas, temos prontidão, que nos leva a interagir espontaneamente, de forma viva e dinâmica.

A prontidão para viver, portanto seria uma demostração de respeito e aceitação pelas pessoas em seu estágio de aprendizado, consciência e diversidade, e ao mesmo tempo que também demonstra um interesse genuíno nelas, que nos levam a gerar estímulos para juntos nos desenvolvermos e ficarmos em paz com nossas vidas e com a gente mesmo, tal como somos.

Entendi que é preciso entendermos bem os limites das coisas para mantermos o equlíbrio. Regras são importantes, mas têm limite. Expectativas são boas, mas têm limite. Assim como responsabilidade, são partes de um processo muito mais abrangente que é tão dinãmico como a vida. Nada é só binário, nada é só preto e branco. Fazia sentido concluir que era parte do meu relacionamento com Deus, ter tomado a decisão que melhor cooperaria com o meu crescimento. As consequencias das decisões que tomei foram as melhores possíveis para me impedir de continuar tecendo expectativas exageradas sobre mim ou sobre as pessoas, ditando modos de agir ou pensar.

No lugar desse equívoco, continuo minhas buscas com um novo sentido – talvez agora, na direção certa: viver em relacionamento de amor comigo mesma e com ou outros, base da vida, sem expectativas ou responsabilidades. Embora na vida profissional, as coisas sejam baseadas em regras, políticas, ganhar-perder, tudo, ainda assim, não pode deixar de se mover com relacionamento baseado no amor. Parei de me julgar tanto e decidi me dar atenção e estímulos para viver em paz.

Uma colega da sala colocou a mão sobre o meu braço, me chamando mais uma vez. Eu não tinha ouvido, tão imersa eu estava nos meus pensamentos. Dali a pouco, os seminários sobre comércio exterior começariam e ela, aflita por não ter entendido bem a parte que apresentaria e com receio de perder nota, pedia minha ajuda. Ela era uma daquelas alunas que não participam da aula com perguntas ou comentários, não dava pra julgar se era boa estudante ou não. Relutei um pouco; me lembrei de parte da minha equipe e dos colegas de seminário se queixando das minhas cobranças e contribuições – era demais ou eram de menos -. Será que eu não a atrapalharia?

Talvez por causa do eu tinha acabado de ler e refletir, minha atitude foi diferente: sem esperar que ela reagisse bem ou mal, aproveitasse ou não, me prontifiquei a ajudá-la a entender o tema que ia apresentar, que por sorte, eu tinha entendido. Ela me acompanhou com atenção, olhos vidrados, fixos em mim que me fizeram pensar se ela estava prestando atenção ao que eu dizia. Não tinhamos muito tempo pra eu checar se ela tinha entendido. Acabei falando algumas coisas de incentivo, do tipo, "agora é com você, vai com tudo que dá certo." e ela fez algumas perguntas pra se certificar de alguns pontos. Foi com o grupo ao palco e apresentou o trabalho.

Fiquei impressionada com a atitude. Eu mesma nunca tive tanta numa apresentação ou palestra. Ela foi com vontade, um postura corporal e uma firmeza na entonação de voz, que me impressionou muitíssimo, era totalmente diferente da menina – vinte e poucos anos – calada e tímida. Aquela menina que, enquanto falava, olhava pra mim, era alguém muito confiante em si, no seu entendimento, e, sem presunção, na sua capacidade de se fazer entender.

O professor destacou o desempenho e reconheceu que, naquela noite, ela havia sido a única que fez uma apresentação verdadeira. A classe reconheceu, ela veio me agradecer. Não tive nenhuma atitude de falsa modéstia: ajudei sim, mas tive realmente pouco a ver com o resultado que ela alcançou, pois dependia somente dela.

Entendi que o desabafo da minha colega de grupo na faculdade era equivocado, o meu feedback não estava errado. O que estava errado era a forma e o momento de abordar isso, ignorando outras insatisfações e inquietações que tinham que ser tratadas em conjunto. Sua resistência ao que eu disse, nada mais era, do que reflexo de outras questões, mas também resistência à mudança de atitude.

Para a minha colega de faculdade, poderia ter dado tudo errado – por exemplo, esquecer informações -, mas o que surtiria um bom efeito seria a atitude e o espírito de superação que ela teve para o desafio do seu momento.

Pensei, indo pra casa, que ao me livrar do julgamento ou das expectativas sobre mim ou sobre os outros, me senti mais livre para acertar, mas que se errasse, daria pra tirar proveito. Valeu a pena ter tido desventuras e pagar o preço por elas nas últimas semanas para aprender isso.

Na volta, as nuvens saíram a passeio e onde o sol marcou luz, vi outra das minhas canções:

"Meu coração resiste e persiste numa prece constante: faça próximo o distante,

desfaça, de repente, a aventura errante

e faça a chegada da alma brilhante, tão ardentemente esperada.

Que minha alma finalmente descanse, em seus braços, meu leito,

onde canso e descanso do amor – "Quando?"

Querido, meu querido tão desejado, tanto

no silêncio, muda canção desesperada, peço,

socorro, meu pleito,

justiça à causa minha,

perfurante sina,

abelha rainha brava,

chuva da janela fechada,

lágrima sozinha, alma."

 

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s