O cãozinho Maslow

Fim de semana que começa com feriado é uma delicia. Aproveitei.

Caminhei pelo bairro, passando pelo parque local, nem parece que em volta tem casas, de tantas árvores, plantas e flores. Lá fiz alongamento perto do tanquinho de areia onde meus filhos vão brincar; um casal de velhinhos me saudou, uma borboleta amarela com uns desenhos ocre nas asas me sobrevoou e uma joaninha de casco dourado me fez companhia, subindo na minha perna. Céu azulzinho, adornando as folhas de vários tons verdinhos das árvores com maritacas e sabiás voando em torno, oração de graças.

Pagar as contas, fazer as contas da semana, organizar as tarefas da faculdade. Limpar a casa, roupas na máquina de lavar, lixo na rua, emails lidos e ligações atendidas. Fui pra cozinha; um peixe, purê de batata, salada colorida e bem temperada, um cachinho de uvas em frente à TV para assitir o Jamie Oliver.

Receitas culinárias feitas em sua casa, com temperos plantados na sua horta e um grande evento para ensinar os ingleses a comer saudavelmente quebrando o mito de que boa cozinha é cara, complicada ou sem gosto. Jamie inspira a gente a descomplicar as coisas: o segredo do sucesso dele é boa vontade, entusiasmo e disciplina – nenhum plano para fazer o que é bom é meramente romântico se dermos o devido esforço e fé.

Sai para a casa de uma amiga, fariamos uma aula de ioga em sua casa. "Querida, pára com esse negócio de academia, você vai acabar desistindo. Yoga é tudo." Aceitei o convite depois de reclamar de dores num dos joelhos, mas deixei claro que a menos que eu me apaixonasse perdidamente, eu já sabia que o meu momento pra ioga é outro.

Entrei na casa dela com um tapetinho rosa debaixo do braço e ela me recebeu com um largo sorriso. "Não teremos aula hoje? Perguntei apontando para a sua camiseta: "Fuck Yoga". Ela riu em resposta e me serviu um suco de (argh) clorofila. Seu papagaio Jung começou a falar "Oi! Oi!" ele só pára quando a gente responde. Jung se chama assim, segundo a minha amiga porque ele gosta de usar símbolos pra se comunicar: o garfinho de plástico vermelho pra dizer que quer uma bolacha, a tampa de um vidro de azeitonas para dizer que quer sementes e duas voltas com a cabeça pra dizer que quer água.

E tem o Maslow, o cãozinho vira-lata de abrigo, pequeno e gordo que se aproxima cabisbaixo, com olhar pidão e rabinho entre as pernas, louco por um carinho. Depois do carinho fica por perto, pra quando der vontade de mais algum, chegar e pedir. Se passa a hora de comer ou sair pra passear, late como se estivesse prestes a atacar e se se demora pra atendê-lo, chora, late e rosna ao mesmo tempo, em desespero. Pegar seu prato, ouvir o barulho da lata de rações ou ver a coleira, funciona como um alívio: se acalma, fica cabisbaixo, olhar pidão e rabinho entre as pernas. Mas não o engane: quando ele percebe que demora, começa tudo de novo.

No fim da aula, que por sinal, foi muito gostosa, iamos para o jardim dos fundos da sua casa meditar, mas o namorado dela chegou de supresa, todo romântico com flores, queria levá-la pra comemorar três anos de namoro, num jantar especial, que ele tinha preparado só pra eles. É, ele é um desses homens que se lembram e ela, uma dessas mulheres que esquecem.

"Ah, meu amor… " – disse ela feliz, depois do beijo longo – muito longo – e meio sem jeito, olhou pra mim, pois tínhamos combinado há meses ver uma peça que em breve sairia de cartaz. Fiz um sinal com as mãos do tipo "Não se preocupe, vá, vá" e comecei a embrulhar meu tapetinho.

Era hora de levar o Maslow para o passeio e eles tinham que sair em uma hora, pois do contrário, perderiam o horário da reserva do restaurante, dizia ele aflito. "Mas, amor, são cinco horas…", disse ela, "Por favor, coração, vamos…", disse ele mirando no relógio da sala. " Mas o Maslow… ", além de tudo estava se restabelecendo de uma infeccção e tinha horários para tomar os remédios. "Quer deixar comigo?", me candidatei num impulso.

Eu o levei para o passeio pelo bairro e em casa, com a bolsa cheia dos seus badulaques, preparei o cantinho para ele e a refeição. Mais tarde, minha amiga ligou, animadíssima, o ar não bastava. "Mulheeeeeer! estou no aerporto!" Ué, jantar no aeroporto, que coisa mais sem graça jantar num café, pensei. "Vou jantar em Porto Seguro, onde a gente se conheceu!" Depois dos gritinhos, da alegria, desligamos, fiquei a sós com o Maslow, que me olhava, pidão.

"Vem cá.", chamei dando umas batidinhas no sofá. Ele se aproximou e se pôs a lamber os meus pés descalços. Maslow, o teórico de administração, da pirâmide das necessidades humanas, explicou que as pessoas tem uma ordem de necessidades, da mais básica a mais complexa e se a mais básica não for suprida, não haverá interesse o consciência das demais.

Primeiro, a base da pirâmide, comida-água-moradia. Segundo, segurança física, sentimento de proteção. Terceiro, pertencimento e amor. Quarto, auto-estima. Quinto, o topo, auto-realização. Fica fácil entender que quando faltam necessidades básicas do tipo, casa e comida, não dá pra falar de outras, como auto-estima ou até auto-realização, que é quando a pessoa se assume e toma conta de sua própria vida, preenche suas próprias necessidades, se ampara no seu sentimento de dignidade.

Com o Maslow no colo, zapeando a TV, um antigo clip dos anos 80, Withney Houston, Greatest Love of All estava tocando.

"I believe that children are out future , teach them well and letthem lead the way.
Show them all the beauty they possess inside , give them a senseof pride…

to make it easier , let the children’s laughter ,remind us how we used to be .

Everybody’s searching for a hero , people need someone to look upto.
I never found anyone who fulfilled my needs…
Lonely place to be and so I learned to depend on me.

I decided long ago, never to walk in anyone’s shadow,
if I fail if I succeed at least I’ll live as I believe
no matter what they take from me.
They can’t take away my dignity…
because the greatest love of all is happening to me.

I’ve found the greatest love of all inside of me
the greatest love of all is easy to achieve
learning to love yourself, it is the greatest love of all"

"Eu acredito que as crianças são nosso futuro
Ensine-os bem e deixe-os conduzir o caminho
Mostre-lhes toda a beleza que eles possuem dentro de si
Dê-lhes uma sensação de orgulho para tornar isto mais fácil
Deixe o riso das crianças lembrar-nos de como nós éramos

Todo mundo procura por um herói
As pessoas precisam de alguém para se espelharem
Eu nunca encontrei alguém que satisfizesse minhas necessidades
Um lugar solitário para se estar,
então eu aprendi a depender de mim

Eu decidi há muito tempo nunca andar na sombra de alguém
Se eu falhei, se eu fui bem sucedida,
pelo menos eu vivi como eu acreditei.
Não importa o que levem de mim,
eles não podem tirar minha dignidade

Porque o maior amor de todos está acontecendo em mim
Eu encontrei o maior amor de todos dentro de mim
O maior amor de todos
É fácil de alcançar aprendendo a amar a si mesmo
Este é o maior amor de todos"

Entendi melhor algumas coisas, fica realmente mais difícil uma atitude positiva diante da vida quando há falta de necessidades básicas, a insegurança que essas faltas geram, a fome – é uma dor, uma raiva, uma falta de chão que tira o norte de qualquer um.

Mas também vejo, que, apesar disso, algumas pessoas tem uma postura mais responsável e proativa com a vida, outras têm sorte e sabem bem segurá-la e fazê-la trabalhar a seu favor. Mas outras nasceram procurando um dono que cuide delas, como um cãozinho. Só sabem reclamar, pedir, pedir, sentir pena de si mesmas e vítimas do mundo, e com o passar do tempo, se abandonam cada vez mais ao Deus-dará até sucumbir na mais absoluta miséria.

Ficam cada vez mais inaptas pra perceber que o poder pra ser e ter está em si mesmas – talento e poder pra isso está dentro de todos, acredito – e daí, as únicas pessoas que consigo perdoar é quem não tem exemplo próximo pra seguir, nem educação pra orientar e despertar a consciência. O amor salva, mas a educação constrói.

Pensei em quantas vezes a gente se arrisca em comportamentos dependentes, a espera de heróis capazes de nos dar tudo o que precisamos – mas tudo mesmo. Criar expectativas, concluí, é um sintoma de que começamos a entregar para os outros a obrigação de suprir certas necessidades pessoais. Entregamos por comodismo, medo ou ignorância. E bem disse o Marcelo Camelo, músico, no seu último álbum, só quando somos Um é que podemos ser Nós, usando como ideograma, o SOU, que se lido de cabeça pra baixo, com a grafia certa, se torna NÓS.

Minha amiga yogini é alguém que faz por si e é batalhadora. Está aberta pra receber de quem quiser dar, mas não transfere pra ninguém suas responsabilidades, sabendo bem que a principal, é ser capaz de suprir suas próprias necessidades. Acabou encontrando um homem que é seu parceiro, forte o suficiente para ampará-la, mas sábio o suficiente para não tirar sua autonomia em questões pessoais, a verdadeira fonte de satisfação. Ganhar dele uma viagem de presente de aniversário de união e depois, me contou no dia seguinte, um anel, pedido de casamento em Trancoso, na Bahia, me pareceu ser uma, das várias e diferentes recompensas que a vida dá pra quem cuida bem de si mesmo. Esse presente é um luxo, mas totalmente possivel pra quem quer, crê e batalha por.

Conseguir algo por nossos próprios meios não tem preço, não é à toa que a auto-realização está no topo da pirâmide. Senti-se no comando, é o supra-sumo das satisfações.

No domingo de manhã, minha amiga noiva veio feliz buscar o Maslow, que depois de fazer aquela festa com a volta da dona, ficou escondido debaixo da minha cama quando percebeu que iria embora. Peguei ele no colo e enchi de beijinhos na barriga, abanou o rabo, feliz e voltou pra casa.

E eu, voltei pra escrivaninha pra planejar a semana. Depois, não houve passeio à geladeira, peguei os creminhos noturnos para me hidratar e assisti novamente Miss Potter, pra encerrar o fim de semana e abrir uma novinha em folha, com desafios, mas cheia de oportunidades.

Não vejo a hora de chegar segunda-feira.

"and if by chance that special place that …
you’ve been dreaming of leads you to a lonely place
find your strength in love."

"E se por acaso aquele lugar especial
com o qual você tem sonhado,
Te levar para um lugar solitário
Encontre sua força no amor"

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