There’s a really big guy between us

Sai do mosteiro de São Bento com a minha mãe depois da missa de Páscoa e fomos para um café. O mosteiro me inspira artisticamente e me traz lembranças da infância. Pra minha mãe, foi uma experiência de renovação de fé.

A segunda vez em que ouvi falar sobre relacionamento pessoal com Deus, baseado no interesse pelo conhecimento espiritual e não pela conquista de coisas, eu estava debaixo de uma árvore, no parque do Ibirapuera, lendo uma bíblia e escrevendo cartinhas pra Deus no meu caderninho a fim de lhe perguntar como se faz para viver melhor.

Eu pesquisava exemplos na bíblia, estórias de homens que se relacionassem com Deus não de forma ritual, mas sim, pessoal. Não era à toa, penso, que os relatos contam que Jesus passava bastante tempo no Monte das Oliveiras – era para estar a sós com Deus para conversar e lhe ouvir. Pra mim começou a fazer diferença orar ou rezar, pois a diferença de significado é bem relevante: um significa conversar e o outro, repetir.

Uma das partes mais inspiradoras dos relatos, conta assim: "Deus falava com Moisés face a face, como quem fala com seu amigo.", no capítulo do antigo testamento. Ao ler o trecho, me lembrei de algumas estórias da infância como a da noite em que uma estrela cadente passou na horinha em que tive um desejo.

Há muitos anos, eu morava numa casa onde eu podia subir até o telhado e ver o céu com poucas luzes de cidade e por isso, muitas luzes de estrelas. Um dia, eu fiquei olhando o céu, não me lembro por quê, mas falei "Sabe, Deus? quero conhecer você…"

Continuei olhando aquele céu de noite estrelada, como se tentasse enxergar algo novo que tivesse me passado despercebido, pois muitas vezes, a gente olha todo o dia uma coisa ou alguém, e não enxerga nada além do que a gente pensa que vê.

Aconteceu, que passou uma estrela cadente, daquelas sobre as quais a gente aprende, no jardim de infância, que ao passar devemos fazer um pedido pois ele se realizará. Quando vi a estrelinha cair, deixando aquele rastro, me emocionei porque Alguém queria me conhecer e queria que eu O conhecesse também.

Naquela manhã no parque, umas folhas secas de árvore cairam em cima do meu caderno, havia soprado um vento mais forte. Mas o vento parecia mesmo querer espalhar um pouco as folhas caídas na grama para que os passarinhos encontrassem comida ou gravetos para os seus ninhos. E lá vinham eles. Foi então que se aproximou uma moça. Começamos a conversar, descobrimos ser estudantes da mesma faculdade e compartilharmos o mesmo interesse puro de travar um relacionamento pessoal com Deus. Que isso não era nem heresia, nem fantasia.

Nos tornamos amigas. Suas orações eram profundas e revelavam um compromisso muito grande com a vida, com sua postura íntima diante da vida, das pessoas, de si mesma e de Deus. Aprendi muito com ela e guardo as lições, especialmente das horas em que espontaneamente ela me dizia: "Difícil, hein amiga? O que será que Jesus faria? Vamos conversar com ele. " E lá íamos nós para o monte das Oliveiras espiritual buscar orientação para agir.

Conheci outras pessoas, a maioria da faculdade onde eu estudava, nos tornamos amigos. Nos organizávamos para compartilhar esses anseios, ter uma conduta esclarecida sobre praticar coisas boas com sinceridade de coração, lendo atentamente os relatos bíblicos. Havia muitos equívocos nos nossos pensamentos, que causaram, ao longo dos anos, transformações na organização. Mas ficou, em cada um, o impressionante interesse pessoal de praticar os ensinos que entendiam na bíblia em seus relacionamentos: profundidade, reflexão, verdade, caráter, sabedoria, alegria, senso de justiça e de misericórdia, sem hipocrisia. E que informação e sonho só viram conhecimento e realização se colocados em prática.

Eu e minha mãe nos separamos e fui caminhando até em casa, relembrando alguns encontros que tivemos e bateu uma saudade de todos. Eu admirava essa busca de ter caracteristicas de Jesus porque se eu o admirava o imaginando como Pessoa nas aulas de catecismo da infância, sem os adereços dos ritos religiosos, imagine alguém de carne e osso, parecido com ele no coração, no pensar e no agir? Apaixonante, pra dizer o mínimo. Com eles, a noção de Jesus passa longe do carinha que fica lá em cima. Jesus é realmente o grande cara que está entre nós, travando contato íntimo o tempo todo, interessado na nossa evolução espitirtual e felicidade. The really big guy between us.

Da saudade, passei para a melancolia, pois com poucos eu mantinha contatos virtuais e com quase nenhum, o contato a olho nu, com abraço, conversas, participando da vida. Com a distância entre os nossos caminhos e interesses particulares, era bem difícil concretizar o ideal de retomar a amizade profunda que buscávamos ter. Ninguém era mais o mesmo, embora a maioria tenha preservado suas buscas espirituais: praticamente todos viveram significativas mudanças de vida e terminaram por estreitar laços com quem tinham mais afinidade.

Quando eu entrei na rua da minha casa, restava uma quadra ainda pra chegar e vi uma mulher com duas crianças caminhando na direção oposta, vindo ao meu encontro. De longe, a criança menor, no colo, parecia chorar e ao nos aproximarmos vi a mãe tentando acalmá-lo, e ele fixando os olhos em mim com atenção.

A mãe também passou a prestar atenção em mim e ele, uns quatro anos de idade, estendeu os bracinhos pra mim e sorriu, chamando-me com as mãozinhas. Ela parou e sorriu. Quando eu parei para olhá-lo, suas mãozinhas abriam e fechavam perto do rosto e depois se estendiam de novo na minha direção. "Ele quer tirar uma foto com você", disse o irmão mais velho do lado. Me aproximei e ele se jogou nos meus braços. Tão pequeno e abraçava tão bem, abraço com afeto, daquele que a gente sente derramar no coração um bem estar, desses de chegada ao ponto de encontro. Enrique, tinha síndrome de Down, fez um impulso pra descer do meu colo e quase caiu, tamanha a força do ímpeto. No chão, puxou meu vestido pra eu me abaixar e puxou o irmão pela calça. A mãe, com paciência e um sorriso sereno, acompanhava tudo e não se queixava de nada.

Ele queria subir no meu colo de novo e colocou um bracinho em volta do meu pescoço e o outro ao redor do pescoço do seu irmão. Como as mãozinhas não alcançavam o ponto, tirou o braço do irmão, posicionou a mãozinha na frente de nós e a abriu e fechou, dizendo vários "Tic-Tic".

"Pronto", disse a mãe sorrindo, "chega de foto, vamos pra casa. A moça também tem que ir, filho." Ele sorriu aquele sorriso completo, de orelha a orelha, com as bochechas levantando os olhos e os iluminando. Do colo da mãe, agarrou minha mão e quis andar comigo de mãos dadas. Os acompanhei até a esquina, tiramos mais umas fotos e nos separamos.

Lembrei do amigo designer, que é fotógrafo também, dizendo que quando não estava com a câmera, fotografava com a alma. Talvez ele fizesse como o Enrique, tic-tic, tic-tic.

A foto destes amigos ficou na minha alma e o Enrique me deu o abraço que eu queria lhes dar e receber. Mas principalmente me abraçou como Jesus provalmente teria feito, ensinando que meus amigos estão em toda a parte, os amigos da alma ficarão para sempre e pessoas que como ele, que me lembravam de Jesus e seu afeto, passariam brevemente por mim e outras, ficariam por mais tempo, compartilhando a vida e a celebrando como eu sempre sonhei.

O mais importante pra mim, era ficar com a alma atenta pra fazer acontecer o amor real em qualquer uma das minhas relações, de fato e de verdade, com simplicidade. Assim como Jesus faz. Assim como Enrique fez.

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Uma resposta para There’s a really big guy between us

  1. Cla disse:

    De prima (quem sabe amiga) para prima, sugestão de leitura, para aplacar seus anseios, assim como tem aplacado os meus:Conversando com Desus (Livros 1,2 e 3) de Neale Donald Walsch.Comentários mesmo, só depois dessa leitura, ok?

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