Deixa sair

Domingo de manhã é bom ouvir Ella Fitzgerald, qualquer canção mas com o song book de Cole Porter, posso ir a Paris e dançar cheek to cheek com as roupas que eu levava para a máquina de lavar, melodia da cantora que sorri quando canta e deixa a gente leve, pronta pra sonhar.

 Pensei num café depois de uma caminhada e, depois de calçar o tênis, fui até a cozinha pegar uma maçã para mordiscar. Minhas amigas Mirna e Joana me mandaram mensagem no celular: “Café?”, “Padoca do Lu?”. “To lá em 5 minutos”, respondi e nos encontramos alguns minutos depois.

A manhã estava meio estava meio xoxa, aquele céu querendo descarregar chuva, mormaço. Mas havia o bendito silêncio entre os cantos de passarinho. Oito horas da manhã, nas ruas, estavam a minha alma, das minhas amigas e daqueles anjos que passariam o nosso pãozinho com manteiga na chapa limpa. Risadas, muitas risadas, ora discretas, ora estridentes, interrompendo silêncio de quem queria uma manhã de reflexão. Bobagens engraçadas do cotidiano. Que presente dos céus, um momento pra não pensar em nada sério, não tínhamos nenhuma piada cínica pra contar, com exceção daquelas de ex-namorados, os pobres coitados que nos deixaram por alguma sem-graça ou sem-alma.

Depois, cada uma foi pro seu domingo, fui caminhando devagar pra sentir o cheiro daquela manhã, esvaziando a cabeça, relaxando e pensando, que bom, uma tarde só pra mim, vou arrumar minhas coisinhas. Cheguei em casa, telefonema de alguém da minha família para uma velha discussão, daquelas que deixam a gente com a sensação de clausura e nada caminha pra um entendimento.

Foi meia hora de conversa-luta. Pediu, deixei vir pra casa, não dava pra continuar ao telefone. Doação, querida, doação, falava comigo mesma. Já que eu não tinha ido a nenhum culto, nenhuma missa ou reunião naquela manhã, eu ofertaria meu tempo, meu melhor, minha paciência, e o que houvesse do meu amor.

É difícil estender os braços a quem não quer estender os seus próprios, mas quer ser puxado pra cima. Mas era isso, ou ir até o fundo do poço pra resgatar. Parece exagero falar assim, mas é preciso ilustrar. Sugeri um banho, uma cama de lençóis trocados, já que chuva viria a qualquer momento e a segunda-feira também. Foi um sono de duas horas, comprei um jantar, fiz um suco, nos sentamos, conversamos mais um pouco, ânimo, enfim. Mas às vezes, dependo da intensidade, de onde toca na gente, da ocasião, ainda fica um gosto ruim na boca, um peso nos ombros, um cansaço, uma raiva que parece ácido no estômago.

No dia seguinte, depois do banho e escolhendo a roupa para o trabalho, só dava pra ouvir Amy Winehouse e comecei o dia com Back to Black, nada em referência à letra, só a melodia, aquela canção meio áspera. Nenhuma reunião naquele dia, nenhuma entrevista, nenhum report ao chefe, só o trabalho de formiga… hum…, então, cabelos em coque sem pentear, brincos de argola, lápis preto nos olhos, bata quase hippie, calça de brim e botas, bolsa, a que me faz parecer que estou indo viajar e nela um pacotinho da droga que eu tinha largado há quarenta e cinco dias, dezoito horas e vinte e três minutos: bolachas trakinas de chocolate.

Help Yourself, Back to Black, Stronger than me, Rehab, You Know I’m No Good,  até a mesa do escritório e o dia foi assim, meio áspero. Que vontade de ser cruel e lhes despejar uma verdades língua a fora, por causa de gente no escritório que resiste em aprender umas coisas. Não faz o mínimo esforço em elevar uma de suas delicadas mãos de quem não dá duro para aprender as coisas da vida em direção sua linda cabecinha onde deveria estar a consciência, cheia só de orgulho e preconceito.

Quando um dos meus colegas me disse, por favor, não pegue uma arma hoje, senão você vai atirar, e saiu me dando um beijo na testa, caí em mim. Se as coisas não estão fáceis, pra que vou torná-las mais difíceis? 

Voltei pra casa mais tarde e minha mãe, de surpresa, tinha feito uma compra de frutas e verduras, enchendo a geladeira de iorgurtes e sucos, que por sinal vieram em boa hora pois a recaída com as bolachas doces poderia me conduzir a um triste episódio. Conversamos, dividimos um jantar caseiro e bem magrinho, rimos. Pensei no quanto ela consegue me doar, apesar de tantas coisas, e estas coisas eram as partes difícieis que muitas vezes, arruinavam o meu ânimo, a minha fé por um futuro melhor. Porque era tão difícil apreciar verdadeiramente o que ela tinha de bom no momento em que ela passava por alguns daqueles momentos desafiantes?

Minha amiga Joana, que me ligou na horinha do pensamento, me disse pra aprender com o meu corpo: de tudo o que ele consome, depois de digerir, fica com os nutrientes e joga fora as toxinas e os bagaços, especialmente as coisas estragadas. É assim que a gente tem que fazer com as coisas da vida, ficar com o bom e jogar fora o ruim: se enfezar é inevitável, disse ela afinal. E então, assim que possível – quais mais cedo melhor -, devemos relaxar, deixa sair, fazer uma massagem na barriga no sentido horário, tomar um suquinho de mamão e pronto. Saiu? Esgoto abaixo? Passou.

Alegria de novo, dieta de desintoxicação à base palitos de cenoura crua, tá na hora de trocar de música. Pra não perder o costume, Blue Skies com Ella Fitzgerald.

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