Gozo na bicicleta

Fui ao meu lugar especial, o Centro Cultural São Paulo, passar o dia, cuidar do meu projeto pessoal. Lá é onde sou, é onde, sem fazer muita força, me preparo para ser.
Perto do jardim, vi uma criança andando de bicicleta, uns cinco anos, assistida pelos pais. Ela ria sob o céu de sol e nuvens de algodão e dava uns gritinhos. Lembrei-me do minha poesia preferida de Carlos Drummond:
 
"Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.

 

Quando uma criança quer andar de bicicleta, ela tem um plano, bem simples: 1. ganhar uma bicicleta; 2. Montar em cima; 3. Sair andando ou correndo, cabelinhos ao vento. Um adulto costuma lhe dizer: antes você precisa aprender a andar de bicicleta. Ela dá de ombrinhos e reforça: "eu quero andar de bicicleta".

Ao ganhar a bicicleta ou arranjar uma emprestada dos primos ou dos amiguinhos, vê que a realidade é mais complicada que o plano: tem que achar o seu ponto de equilíbrio, um bom lugar pra treinar; enquanto procura, treina onde dá e como dá, leva uns tombos, se machuca, mais ainda se o terreno disponível naõ é tão plano ou tão largo ou tão livre quanto seria preciso ser. Mas não tem problema pra ela. O mais fascinante num criança é que ela nunca pára por causa das dificuldades da realidade – aliás, se possível, se diverte com elas e descobre coisas que deixamos de ser capazes de descobrir: Também não desperdiça as oportunidades que acha. Muito menos põe na balança a quantidade de dificuldade num pratinho e a quantidade de oportunidades no outro pra ver se andar de bicicleta é pra ela mesmo, nem pára pra pensar nas dificuldades, achando por fim, que não tem capacidade pra vencê-las. Simplesmente insiste, até conseguir. É claro, que havendo adultos ou amiguinhos por perto encorajando, ajudando a segurar no guidão um trechinho, diminui o risco de acontecer a transformação de tombos ou gargalhadas que ouve por eles em traumas ou abandono do plano. Consegue.

Por que quando a gente cresce, perde a habilidade de perseverar e a humildade de se sujeitar aos tombos e dificuldades da vida? e ainda dizem por aí que quando não lutamos pelo que queremos, é porque agimos feito crianças… Tudo bem, uma criança não tem que trabalhar pra ter a bicicleta, mas sinto que se tivesse, não abriria mão de aprender a usá-la de modo tirar o máximo de prazer e felicidade dela. Nós adultos compramos tantas coisas com o dinheiro que recebemos do trabalho e não nos empenhamos em usá-las pra aprender nada de realmente importante, como amar.

Ainda me poupo muito da vida com medo de fazer escolhas erradas ou de sofrer, percebi que pensar assim me mostra que meus sonhos, se algum dia tiveram, perderam o seu valor real pra mim. Valorizei mais o que é ruim; esqueci que nada do que é ruim, nada mesmo, é realmente maior do que nós mesmos ou do que todo o bem que a gente quer conquistar. Deficientes físicos esportistas de campeonatos, por exemplo, sabem bem o que estou falando. Aém disso acho também que o ruim é importante. Sua dureza e aspereza são tão importantes para a construção dos nossos sonhos assim como a massa de concreto e as barras de aço são importantes para uma casa ou um edifício, ou os ossos para o corpo, o remédio para a cura, o espinafre para o sangue. Se a gente abre mão dos sonhos e fica com a realidade sem eles, tudo fica ruim, precário: imagina uma casa só no concreto armado, um corpo só no osso, a doença e o sangue anêmico. Desagradável, precário,  triste, ameaçador, propagador de outros males.

A gente se engana muito, tanto por achar que acerta, como por achar que erra, se não prestamos atenção ao que a vida diz, ao que Deus diz, seja por meio dos acontecidos ou da consciência nossa e de outras pessoas ao reagirem de formas inesperadas ou dizerem coisas difíceis de ouvir.

No fim da tarde, já de volta do escritório, em casa, liguei para o meu amigo pra saber como estavam, se precisavam de alguma coisa, com sinceridade de intenção, especialmente porque antes, fiz minhas orações pela esposa e por eles. Quem me atendeu foi sua filha pequena, leve, alegre, até se divertiu quando a lembrei do desenho que fez pra mim num dia que passou com o pai no escritório. Em seguida, uma pessoa totalmente diferente me atendeu: era o chefe falando, bom que animado outra vez, mas irritado com a ligação fora de hora e de propósito, agindo como de costume ao ser incomodado: curto e grosso.

Desliguei e fiquei alguns minutos em choque, olhando para o vazio. Fui até a cozinha e cortei uma frutas para guardar na geladeira. Ao terminar, os pensamentos e os sentimentos voltaram. Primeiro tentei justificá-lo – o momento pelo qual passava, não convivíamos há anos, enfim, não dava para esperar que a todo o momento houvesse confiança, entrega e carinho. Depois, pensei "O que fiz de errado?"

Sem conseguir deixar o assunto de lado, repassei na cabeça todos os contatos que tivemos, andei pela casa, desliguei o rádio, olhei a paisagem das janelas de casa, folhei livros, revistas e num deles, li uma pergunta e uma resposta: "Onde está escrita a Lei de Deus?", "Na consciência." Enfim, surgiu a questão: minha decisão de não ir para o velório ou o enterro tinha sido equivocada, especialmente porque ele tinha se dado ao trabalho de me avisar e deixar o endereço do local das cerimônias. Escrever uma mensagem pra alguém ou telefonar não exige tanto de nós. O que exige mesmo é estar presente, ao lado da pessoa que sofre, segurar-lhe as mãos e falar-lhes sem desviar o olhar dos seus olhos e apaziguar, com amor de atitude e com coragem, o sofrimento que vê neles; se mostrar totalmente disponível pra atravessar, lado a lado, o túnel escuro pelo qual ela passa, seja um trecho , seja o resto do percurso, afinal, a luz que a gente leva, por menor que seja – a do tamanho de um palito de um fósforo, por exemplo, afasta o breu da escuridão e o calor do nosso corpo, mesmo que na proporção de um aperto de mão, um sorriso ou aquele olhar de segundos, afasta o frio que alma que sofre sente. Se eu estivesse em seu lugar, ele teria feito isso por mim. Já o vi agir assim.

Condenada pela consciência, entendi que seu comportamento no telefonema foi uma reprovação da vida. Não estou pronta pra amar alguém como ele, não tenho condições agora, de corresponder à sua amizade. Não que eu seja incapaz ou fraca: simplesmente estou despreparada. O conhecimento que recebi ainda não incorporei ao meu viver de forma satisfatória pois confesso, ainda acho que as "razões" para a insegurança e a corvadia que eu sinto são mais contundentes do que as razões para a realização dos meus sonhos, dentre eles, ter amigos como ele e outras tantas especiais que eu deixei escapar pelo mesmo motivo, a mesma ignorância.

Fui pra cama cedo, completamente desanimada e um pouco desorientada, mas não consegui dormir. Levantei, comi alguns pedaços de frutas e fui ler o próximo capítulo do livro que ganhei sobre a felicidade. "Você ama?", era o título.

Foi então que eu entendi porque apesar do conhecimento e das pessoas que me encorajavam para evoluir, continuo despreparada e refém da insegurança e da covardia. Orei por mim: não preciso de dinheiro, de amigos leais e verdadeiros, um bom homem que me ame de verdade, filhos queridos, viagens, patrimônio, carreira de sucesso. Não preciso de nada disso mais do que de sabedoria e coragem. Coragem e sabedoria para ir à vida e reformar a minha realidade, fazendo bom uso dos materiais duros e amargos e sem fazer conta das dificuldades, tombos e machucados além do necessário, lembrando que sempre terei muito a aprender, especialmente sobre o que é amar alguém de verdade.

Aprender inclui tombos, nãos, dificuldades, machucados, e constatação do quão somos difíceis desagradáveis, feios, equivocados e limitados. Aceitar que isso faz parte de quem somos afinal, nos ajuda a construir uma vida melhor. Essas partes más da nossa vida e de nós mesmos são o que são: p-a-r-t-e-s. Não podem ganhar importância maior que o Todo, a soma das partes más com as boas: nós, nossa vida, nossos sonhos.

Pra mim a vida me pareceu ser assim mesmo: se a gente não se amar, não consegue amar de verdade a ninguém. Todo o bem que fizermos a outras pessoas, embora ainda seja bom, não tem força real para mobilizá-las a fazerem por si mesmas a parte que lhes cabe pra fazer acontecer as próprias vidas.

Afinal, foi bom ter tido um pouco de coragem pra ligar pra ele; se eu não tivesse me tornado disponível com o que eu tinha pra dar no momento, não saberia o quanto preciso aprender sobre o amor.  

Bem, vamos recomeçar, de verdade, o trabalho de aprender a amar. Ninguém melhor pra ter com quem fazê-lo senão com a gente mesmo.

  

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