A perda de um amigo meu

Não contentes em ter me dado tanto no meu aniversário, minha tia e minha prima me mandaram de presente, dois livros que falam sobre a felicidade. Embalados num papel de presente que tinha grafia de pedra, me pareceu, que eles traziam a história da pedra angular para os meus novos caminhos: eu mereço ser feliz e antes de qualquer coisa, mereço saber que quando errei, o que me resta pela frente é somente a responsabilidade de lidar com as consequências, ou seja, não há castigo – isto é: não há recompensa pelo mal feito – muito menos culpa. Admiro e imito o anseio delas em fazer o bem, sem perda de tempo.
 
Os livros, embora falassem mais da psicologia da gente, também tocavam em espiritualidade; de autores espíritas, ensinam que o espírito é eterno e a morte, é uma etapa de mudança e não o fim eterno. Uma das coisas que mais me encorajaram em um deles , foi umas das frases de uma oração, que pedia a Deus dar alegria mesmo na dificuldade de lidar com as consequencias de más escolhas para que andássemos determinados a buscar a felicidade, confiantes na misericórdia de Deus. Isso é muito forte – confiança, misericórdia, Deus, mais do que sermos otimistas é sermos confiantes, pois o otimista torce pra que tudo dê certo e pensa que vai dar. Mas o confiante simplesmente sabe e faz dar certo, pelo menos a parte que lhe cabe.  
 
Nada disso é tarefa fácil, claro.
No dia em que li os primeiros capítulos comecei a ter sonhos felizes, acordar descansada e principalmente ver as coisas sobre outra perspectiva, uma perspectiva menos suspirante e mais pragmática, sem perder o idealismo.
A hora de colocar em prática, é a hora dos desafios, da prova da teoria: mudanças no trabalho e nova movimentação para demissão, tudo outra vez e chefe cada vez menos tolerante, apressado pela urgência de reduzir custos e aumentar a eficiência, qualquer ganho se torna cada vez mais insuficiente. E apesar de toda a pressão, acompanhada de humilhação pública, manter a serenidade, o controle, o amor e sobretudo a sabedoria para manter as pessoas trabalhando com clima bom o suficiente pra "criar soluções inovadoras". Hum, vamos ver.
Esse "nado de costas 100 metros para bater recordes olímpicos", requer treino, persistência, sobretudo fé e aqueles livrinhos, que eu devorei no almoço e no jantar me deram mais força pra essa atitude, a atitude de vencer sem ser uma super mulher e sim, ser eu mesma e dar força também.
 
E então , hoje me ligaram para dar a notícia de que a mulher do meu ex-chefe havia falecido naquela manhã e ele pediu que me avisassem. Depois de anos lutando contra o câncer, ela não resistiu. Não cheguei a conhecê-la pessoalmente, somente através das ligações amorosas que ele recebia ou fazia a ela nos intervalos do trabalho ou da angústia que percebiamos em seus olhos inchados de chorar nas manhãs em que vinha para o escritório. 
Ele nunca reclamou, nunca falou dela ou de seu sofrimento, apenas avisava toda a semana quando precisava estar com ela no hospital, para acompanhá-la nas seções de quimio. 
 
Na época em que trabalhávamos juntos, eu passava por uma crise pessoal e fiquei doente; não podia ter tido melhor chefe pra ser paciente comigo e tolerante; ele era como estas pessoas maravilhosas de quem falo de vez em quando, que me agraciaram com o seu amor: não tinha medo de enfrentar as escuridões que me cercavam e olhando pra mim e não pra si mesmo, me enconrajava a seguir em frente. "Não abaixa a cabeça.", dizia ele com suavidade, ciente de que isso, às vezes era como dizer a alguém triste e inconsolável: "Não chore.". Por isso era suave, como com suas filhas e sua esposa em horas parecidas. Ele estava no meu dia-a-dia, via minhas oscilações de humor, meus lados não tão admiráveis e mas não desistia de exigir de mim o meu melhor e muito menos de mim por causa do meu pior, aliás, conduta comum para quem acredita no amor, na felicidade e na amizade.  
 
Então, no ano passado, ele havia anunciado que fora promovido para atuar em outra área na empresa, outra diretoria. "Você não vai perder o contato comigo. Sou seu amigo." O tempo passou, já nem nos falávamos tanto, embora tal como um anjo protetor, aparecia de repente, como se avisado, nos momentos mais difíceis no escritório só pra, de longe me fazer um sinal com mão: "Cabeça pra cima." e sorrir.
 
Liguei pra ele; depois de tudo, era forte e preparado, ficou contente em me ouvir. Mas em seguida chorou de saudades da esposa, preocupado se Deus reservaria um bom lugar pra ela. Isso foi muito duro pra mim e foi então que eu dei a ele o que eu recebi, como um remédio: "A vida dela não acabou, Deus está cuidando dela e colocou ela num lugar maravilhoso. Vai dar tudo certo." Compartilhei o pouco que eu sabia, mas deu pra transformar a angústia em conforto e ele se recompôs, pra continuar as cerimônias com a família.
 
Fiquei preocupada, ela era a mulher da vida dele, poderia acabar se tornando um viúvo triste. Não sei como ele vai se recompor sem ela, logo ele, que, com ela há mais de vinte anos, era um homem cheio de paixão pela vida e pelas pessoas, que entende de gente, gosta de Deus e do Amor.
 
Ao desligar o telefone, decidi não ir ao velório, isso não é importante pra ele, que sempre foi reservado em relação à sua família, foi melhor, bem melhor ter ligado e conversado. Logo pensei: ele tem o dom de ser feliz porque ama de forma abnegada, vai encontrar meios de viver com alegria, apesar das saudades.
 
E eu , aconteça o que acontecer, venha quando vier,  não só vou viver a felicidade como, ao encontrar as pessoas que amo e as que vou amar, se estiverem de cabeça baixa, vou dizer: "Cabeça pra cima." e lembrá-las, de todas as formas que eu puder, que a gente traz jóias na alma que não podem ficar esquecidas num canto qualquer dentro nós, devem nos servir de adorno pra também passar a mensagem de que todo mundo tem a sua e é tão belo como ela e digno de amor e felicidade. 
A vida continua mesmo. Sempre.
 
 
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