Amor de Salvação

No primeiro dia do novo ano, acordei com uma mensagem da minha prima:" Quando você quer vir pra cá?". Senti uma felicidade, no momento inexplicável, era como se a mensagem dissesse: "Tem uma porta aberta aqui pra você, quer vir?" Não que a dela não estivesse, mas é como se a dela desse acesso a outra e outra e outra. Não foi à toa que, ao combinar o dia da visita, sugeri o do meu aniversário.
Os dias que se seguiram não foram tão felizes: desentendimentos na família, demissões na empresa, incerteza, solidão, argh! Passou pela minha cabeça cancelar o compromisso, é comum eu desistir daqueles que me farão bem – eu sei disso porque quando insisto e vou na força, descubro sempre que eu naõ poderia ter feito nada melhor.
Ainda assim, meu estado de espírito não era bom: cansada, triste desanimada e descrente. Nada melhor quando minha prima me mandou outra mensagem pelo celular: "E aí, você vem?" Não dava pra responder: eu estava numa sala de reunião na empresa, reunindo forças pra ir chamar a pessoa da minha equipe pra demitir por causa da crise e passar pelos corredores me deparando com pessoas inconformadas ou simplesmente deseperadas, pensando também, que talvez no fim do dia, meu chefe me chamaria para o mesmo fim de capítulo.
Horas depois, quando o dia horrível acabou, respondi que sim, sem dificuldade ou resistência e dois dias depois estava desembarcando em sua cidade, cheia de alegria outra vez, especialmente porque a minha festa começou desde o primeiro abraço depois de anos.
 
Esta família é uma que provalvemente eu não teria encontrado na vida, se não fôssemos parentes, aliás como acontece com todo mundo, somente porque nossas vidas tomam rumos diferentes, apesar das afinidades.
 
Tive gratas supresas, como encontrar meu primo e sua família, almoçar com eles e brincar com as crianças. Mas a maior delas foi reviver com minha tia a enorme sensação de que tudo vai dar certo porque ela é uma daquelas pessoas que a gente encontra de repente, quando tudo parece perdido e ela recupera as forças com cinco minutos de conversa e outros gestos que oferece de graça, só pra gente se sentir bem.
Quando eu era criança, foi uma das poucas pessoas que respeitou o meu direito de ter infância, aliás, minha tia é uma das poucas pessoas que sabe a importância que uma criança tem: apesar do corpinho frágil, da dependência, das travessuras, sabe que ali mora uma alma cheia de dons, de amor, capaz de ajudar a tornar o mundo melhor desde o primeiro momento em que pôs os pés, ou melhor, a boca no mundo.
Salve aquele imenso quintal, bolos de chocolate e as gelatinas coloridas, o macarrão vermelhinho e frango de forno com batatinhas.
 
Conheci suas conversas ao pé da mesa, a vibração da sua alma num momento em que eu comecei a apagar, perder a graça de ser eu mesma, coisa que acontece às crianças que começam a ficar adultas cedo demais e lhes falta aquele amor que as torna confiantes em si e na vida. O bolo, o café, o pão, as gostosuras de um lado e ela do outro lado da mesa, tentando me reanimar com aquela vibração de torcida de 20 milhões de pessoas, Pra Frente, filha!, dizia com os olhos imensamente azuis cheios de brilho. São minutos de pura doação, é com você que ela fala, não consigo mesma, doa uma mensagem viva de quem é apaixonado pelas pessoas e tem muita fé de que nada de importante impede alguém de cumprir o seu destino sonhado. Quando falo com ela, sinto que posso tudo. De certa forma, foi o amor que me salvou de viver apagada e me impulsionou a buscar sempre as boas coisas.
 
É claro que a minha vida não se desenrolou conforme seu encorajamento, porque depende da minha própria fé, fé da qual só agora, muitos anos depois, descobri o fio e vou chegar até a meada. E ela, mesmo depois de tanto tempo e tão pouco realizado, não perde a fé pelo meu futuro e nem a admiração pelos meus dons e sobretudo, pela pessoinha que sou.
 
Como as coisas que nos acontecem se completam, também não foi à toa que ela me deu de presente uma coleção de livros pra me dar uma força espiritual e minha prima, também cheia daquele mesmo coração apaixonado, responsável pelo delicioso bolo de chocolate daquele dia, escolheu um papel de presente que tinha desenhado em lilás, aqueles flores lindas, chamadas Amor Perfeito.
 
 
 
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Uma resposta para Amor de Salvação

  1. Cla disse:

    Só posso agradecer pelo amor imenso que demonstra ter pela minha mãe! Pensei em emprestá-la para você de vez em quando, mas acho que antes de mais nada, devo prepará-la para o possível embate que terá pela frente com a Anjinha, afinal, a Vovó é só dela…Fica com Deus! Muita Paz!Muita Luz!"CLAROSBAR"

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