Pessoas que a gente encontra de repente

Algumas pessoas passam por nós, nos notam e nos dizem algo sobre nós. Algumas pessoas nós notamos e percebemos dizerem algo sobre si mesmas. Percebendo, a alma da gente tem oportunidade de sair das profundezas de quem somos na realidade e derramar o seu próprio olhar, dizer as suas próprias palavras. Tudo isso, dura segundos, pois sempre voltamos para a superfície.
 
"Olha a princesa! Hoje eu sirvo você. O que vai ser? Aquele café carioca?", diz sorridente o seu Lélio da lanchonete onde costumo tomar um café e um tempo pra mim. Tem gente que, às vezes, cumprimenta os outros com uma euforia desconcertante, chega a dar arrepios mas o seu Lélio, homenzinho baixo, de bigodes grisalhos, apesar de gostar de se debruçar no balcão e falar alto com os homens sobre futebol, me tratava com o cuidado de um pai apaixonado pela filha mais linda do universo. Pai que criava assunto pra me ouvir falar, assumia que era de propósito só pra ouvir a minha voz. Voz que ouvia como quem escuta uma música, embalado. Encontrá-lo, era me sentir a mulher mais linda do universo, dona da voz mais encantadora de todos os tempos. Tem gente que faz compras pra se sentir melhor, eu vou tomar café no seu Lélio. 
 
No almoço, encontrei uma pessoa inesperada. Fiquei tão surpresa que demorei pra reconhecê-la, era uma amiga que tive na faculdade, Anita, quem eu tinha revisto num jantar de aniversário de uma das minhas amigas no começo deste ano. Odeio não me lembrar de quem me cumprimenta feliz ao me ver, chega a me dar uma tristeza. Um amigo uma vez presenciou uma situação dessas e como eu fiquei abatida durante a conversa, se preocupou, me perguntando depois se a pessoa que havia me encontrado me trazia más lembranças. Quando eu expliquei a tristeza riu tanto, me abrançando tão apertado que eu nunca mais me senti sozinha quando não sou reconhecida.
 
Anita falou durante o almoço sobre o seu trabalho e não sei bem porque começamos a falar de doces. Felizmente a essa altura eu a havia reconhecido – pra ser exata, foi na hora em que ela pousou o prato para a pesagem e vi duas folhinhas de alface, um punhadinho de arroz branco e umas iscas de peixe. Só. Era ela, a admirável mulher sem apetite que todas nós gostariamos de ser na hora do almço e do jantar e quem entre nós, no intervalo da faculdade, torcia o nariz para os nossos pães de queijo, de batata, presunto e queijo, nham-nham. Lá estava ela, magérrima de dar raiva e imensamente feliz, não por me encontrar, depois de cinco minutos de conversa eu entendi-, mas sim por encontrar alguém que menos esperava num lugar inesperado e isso, poderia ser uma notícia do destino que outras boas surpresas chegariam. Não só as boas surpresas da vida, mas também aquele poder que a gente nunca usa a nosso favor, o de aceitar que há certas coisas com as quais não podemos conviver e que apesar de tão boas pra todo mundo, pra nós são tão perversas pois até trazem outras desgraças, como um inocente brigadeiro que  puxa outro, outro, outro e um chocolate, outro… Pela primeira vez em anos, fiquei feliz em dispensar a sobremesa.
 
Amo também quem nos fala algo difícil de ouvir com todo o cuidado para não machucar, não o gesto de auto-defesa ou de bajulação, mas aquele cuidado de amor, de quem se importa com você, com o seu bem-estar – não necessariamente pra sempre, pois no momento seguinte pode sentir vontade de arrebentar você por algo tolo ou mau que faça ou diga. Foi com esse tom e esse tato que meu amigo João, parceiro de projetos numa ong para crianças carentes do qual participávamos, me confortou quando eu lhe contei da saída de mais um colega nosso, Julio, importante para as crianças. "Você sabe que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde." Foi um carinho inesperado, de um irmão que eu não tive, que me tirou o incômodo daquela notícia áspera como num filme de cinema. Tive vontade de conversar horas com ele naquele tom e terminar o assunto com aquele longo e igualmente terno abraço de "Vai ficar tudo bem". Mas as pessoas em torno, meus horários e os dele nos interromperam. Realmente chega uma hora em que a gente quer mais da vida e não dá mais pra se dedicar em sarar as dores alheias de multidões, pequenas ou grandes, só pra poder descobrir algo sobre nós, "contribuir com a sociedade" ou "mudar o mundo" – com ou sem aspas.
 
No fim do dia, na aula e triste, me isolei por uns instantes. Pedi a uma amiga nova que me emprestasse o caderno para anotar as lições que eu havia perdido. Fiquei imensamente aliviada pelo atraso da nova professora e pelos meus colegas em volta ficarem entretidos numa acalorada conversa sobre problemas operacionais no trabalho, sem me envolverem. Há horas em que ficar triste é contrair um câncer que se alastra violentamente dentro de você, consumindo tudo e te esvaziando – nem o caderno cor-de-rosa da minha amiga fez algum efeito positivo. Então, é quando pequenas doações que fazemos nos recuperam. O caderno tinha separadores de matéria com espaço para recados, dedicatórias e afins de amigos. Fiz um desenho e escrevi que eu estava agradecida pela gentileza de emprestá-lo e que eu lhe desejava boa sorte na carreira, já que competência pra ir longe ela tinha. Ela nem precisava dar um gritinho de alegria, dizer muito obrigada e dar um beijo estalado na minha bochecha. Antes disso, foi só eu fechar o caderno pra que a tristeza e suas metástases fossem embora.
 
Chegou a professora nova, que num primeiro momento me pareceu arrogante e excessivamente saltitante de tão alegre; a sua conversa sobre experiências pessoais me irritavam, a cada minuto eu trocava de posição na cadeira, sem encontrar um fio de Ariadne que me trouxesse de volta para a aula. Veio o intervalo, pausa para lavar o rosto e esticar o corpo, três respirações profundas e lá íamos para a segunda aula com a professora alegria. Mudamos as cadeiras de lugar, e ela finalmente começou a seguir a pauta da aula passando as informações que eu esperava. Talvez tivesse sido a minha concentração sobre o que dizia ou distração do que havia me incomodando tanto, que me fizeram, ao ouvir seus comentários sobre comportamento humano, enxergar a beleza dela. "Tudo isso só mostra que somos diferentes, nem melhores ou piores, apenas diferentes."
 
A alegria era de uma menina falando uma verdade sem outra intenção senão a de dizê-la. Ela realmente acreditava que o mundo de cada pessoa seria melhor se cada um parasse de se comparar com os outros – seja a si mesmo, sua história ou sua vida – e passasse a colaborar mais consigo mesmo, permitindo-se ser diferente na convivência, na maneira de contribuir e com o que contribuir. Não sei se os demais perceberam, mas o que dizia e como dizia não era, nem de longe, uma idéia passada num discurso acadêmico ou dogmático: eram dizeres de uma criança falando a verdade.
 
Como a verdade liberta, no caminho de casa comprei um sorverte de chocolate – só um – e vim fazendo planos de como eu poderia colaborar comigo mesma pra que tivesse um fim de semana feliz.  
 
 
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