Simples assim

Houve um tempo em que visitar os meus pais significava matar um fim de semana. O encontro era difícil; além das críticas e expectativas que minavam as minhas energias, eu não sabia apreciar o que vivíamos de bom no momento. Ficávamos muito sensíveis a todos os dramas do passado e então, qualquer ventinho que esbarrasse nas lembranças, como espinhos, éramos espetados por elas. Acabávamos pouco à vontade uns com os outros ou nos espetávamos, achando, por fim que as coisas não mudam, nem as pessoas, revivendo o que deveria ter ficado pra trás.
 
Mas mudanças podem acontecer. Na minha família, mudar de conduta nem sempre foi uma possibilidade necessária e real. No dia que meu pai me mostrou o calendário do ano de 1944 que meu avó deixou pra ele, onde o dia 18 de agosto, dia do seu nascimento, estava marcado com uma nota: "Nasceu para ser feliz.", percebi que estávamos partindo para um novo relacionamento e que ele não se conformaria em não ser. 
 
Ainda não sei o que me fez ser otimista antes deles, talvez reação a alguns momentos, mas só o fato de meus pais terem ficado receptivos a um futuro melhor, conseguimos colocar em prática a idéia de ser feliz, coisa que muitas pessoas acham que só funciona na teoria. Quem acredita e põe à prova, vê que as tensões e discussões não cessam, mas se tornam menos intensas e frequentes, regride a capacidade de destruição que mal-entendidos, rancores e mágoas guardadas têm e finalmente, o melhor: os males não diminuem porque as pessoas teriam desistido de se defender ou punir o outro, passando a ficar mudas, se anulando. Mas porque estão se empenhando, cada qual à sua maneira, em ter dias melhores.
 
Ir à casa do meu pai porque ele ligou para uma pizza, agora é para ter uma conversa divertida que combine com pizza, e se caímos num assunto sério, ele não é evitado. Tomar café da manhã com ele e responder a pergunta de como vão os estudos e não ouvir, depois de dizer que, embora atrasada, retomei a especialização, críticas e comentários irônicos ou raivosos e sim, "Muito bem, mas não pare, você ainda não desenvolveu todo o seu potencial.", pausa para o olhar firme e sorridente que trsnmite confiança e me dá um tempo para entender o que ele acabava de dizer. "Eu não estudei mais porque sempre fui preguiçoso. Não siga o meu mau exemplo.", continuou se levantando para pegar mais café. Minha mãe me perguntando como ia o coração. "Aberto, à procura, à espera", eu respondia, não era mais uma deixa para criticar meu peso, meus cabelos, minha falta de decotes, mas um simples, "Tudo tem a sua hora, você merece um homem bom." E mesmo quando a crítica acontecia, eram recomendações com um engraçado "Assim não dá, né?", que eu já considerava seguir.
 
Essa boa vontade foi uma permissão que só o perdão e a visão de uma atitude melhor que podemos ter de alguém, pode dar. É uma construção paciente ao longo do tempo, com espaço para cometer erros e repetí-los e para celebrar acertos. São pequenos gestos: um telefonema, levar uma barra de chocolate para a minha preparar um bolo que ela adora fazer ou meu antigo discman para o meu pai consertar. É ouvir do meu pai que a vida é uma longa estrada deserta com oásis imaginários e não condená-lo pela má lição, mostrando como é a minha visão: um mundo rico de recursos e possibilidades à disposição pra todos, mundo do qual ele pode participar. É ouvir minha mãe reclamar três vezes na mesma conversa sobre uma falta do meu irmão que não consegue esquecer e perdoar, e conseguir não mudar de assunto de forma exasperada, respondendo, nas três vezes que na verdade, ele a ama.  É ficar no portão quando eles ainda estão dobrando a esquina e ver que olham pra trás pra ver se estou ali, acenando sorridentes mais uma vez. É ouvir com uma atenção sem julgamentos ao que dizem, lembrando, somente quando necessário, dos limites que existem entre os espaços individuais para exercer sua capacidade de escolha. E é, acima de tudo, uma certeza de que a felicidade que você não vê na hora, já está ali, precisando de um pequeno estímulo para se manisfestar. Ou de vários e períodicos pequenos estímulos. Todos doados anonimamente.
 
É tão simples amar e o amor realmente pode mudar tudo. Dizem que Albert Einstein teria dito que tudo o que é simples não é fácil. Uma vez disseram que ele esteve no Brasil e ficou frustrado por não ter encontrado ninguém intelectualmente estimulante para passar o tempo; cercado de professores e doutores universitários, como poderia ser possível se aborrecer? Fiquei eu e minha inteligência mediana pensando que talvez foi nesse momento que ele teria chegado à sentença. Rodeado de mestres e doutores – sem rotular todos, tampouco desmerecê-los, –  com suas densas, detalhadas discussões sobre as teorias mais sofisticadas não teria encontrado prazer. O teor hiper elaborado dessas conversas teriam indicado que eles não fizeram o trabalho de simplificar as idéias, o que teria facilitado a convivência ao falar delas e com isso, estimulado o apetite pela vida que elas traziam.
 
Guardei uma novo fotografia dos meus pais no álbum da minha alma. Vivendo assim, fica mais fácil me permitir amar mais pois  amor faz as coisas funcionarem. 
Quando a gente ama, o tempo rende, todo bem que a vida tem começa a ficar acessível e muitas coisas começam a fazer sentido.
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