Berço Esplêndido

Quando crianças, nossos desejos devem ser atendidos imediatamente, assim como nossa dor e nossa fome devem parar e quando aqueles adultos cruéis, egoístas, burros e insensíveis nos contrariam ou nos magoam, devem ser condenados à fogueira como bruxos.
 
Pensamos que somente quando as coisas se resolvem nessa velocidade e sempre conforme a nossa vontade é quando ficaremos felizes, realizados, em paz, com saúde, com as nossas causas plenamente justificadas, nosso futuro desimpedido e nosso bem-estar, acima de qualquer coisa, honrado.
 
Sempre alguém está envolvido pra nos satisfatizar ou insatisfazer. O alguém, pra nós, crianças fofas, é um ser indeterminado – pouco importa não é mesmo? – a quem aprendemos chamar de responsáveis, muitos que, diga-se de passagem, nunca sabem a hora de parar de cuidar como tal.
 
Quando crescemos, metade de nós continua debaixo das asas dos responsáveis, sem nunca se terem feito as perguntas básicas "o que eu mesmo quero da vida e como faço pra obter?" enquanto que a outra metade sabe exatamente o que quer e como fazer para alcançar, mas quer que os responsáveis do mundo todo providenciem e garantam absolutamente tudo, atendendo ao berrante "eu quero e quero agora". E ai de algum responsável dizer "Vai buscar você!".
 
Como todas os cálculos de mapeamento de populações tem um desvio estatístico, considero que os adultos responsáveis por si mesmos estão no desvio.
Leia-se responsável por si mesmo, aquele que sabe o que quer – se não sabe, tenta descobrir por si mesmo – , corre atrás, pede ajuda, estabelece contatos. Na hora do balanço para apuração de perdas e ganhos não se atribui todos os ganhos e não atribui aos outros todos os prejuízos. Discerne as questões, se dispondo com ou sem vontade a se corrigir ou se desafiar a ir mais longe, medindo as consequencias, assumindo riscos, mudando de plano quando a hora não é boa, ou abrindo mão quando sabe que não haverá hora nenhuma para o que está pretendendo. Este adulto pelo menos tenta agir assim.
 
Há um mês,  meu chefe tinha um projeto a ser desenvolvido em conjunto com a área que cuidava de relações governamentais e todos os envolvidos iriam para Chicago passar um mês para o planejamento. Eu estava torcendo por mim, mesmo sem o MBA adequado, nenhum projeto de grande porte nos últimos três anos, eu tinha inglês fluente, formação em faculdade de primeira linha e um desempenho destacado na minha área. Ele também tinha um projeto menor, interno e de longa duração, que pra nós estava claro que não agregaria nada de novo, exceto, talvez, aumentar a capacidade de resilência, pois o sofrimento para implantá-lo iria ser grande.
 
Há uma semana ele me chamou pra discutir quem fará o tal projeto interno; além da resiliência, outro ganho do projeto é uma promoção imediata que pra mim não cabia. Indiquei o Otaviano, um dos demais gerentes que tinham acabado de finalizar outros projetos. "Não," respondeu o chefe, "é muito pouco pra ele. Montar uma fabriquinha?" Tentei argumentar que para o funcionário, o projeto não representaria dificuldade e que por isso, ele poderia perfeitamente assumir novos desafios em paralelo. "Não, não é bom."
 
Ontem, cheguei no escritório supreendida pela chuva forte que caiu. Minutos passados entre a calçada e o hall de entrada, sem guarda-chuva e impedida por uma pequena multidão que se aglomerava no hall para o exercício de incêndio, foram suficientes para me ensopar. Fiquei dez minutos debaixo do secador de mão para secar os cabelos, mas minha roupa, como amassava, tinha que continuar secando no corpo. Foi com esse visual que voltei para a mesa do chefe que olhou pra mim fingindo surpresa, perguntando se eu tinha sido tragada por uma onda gigante. "Senta aí." disse rindo depois. Então veio a notícia: eu cuidaria do projeto interno e mais dois que tinham dependência com este. "E Chicago?" , perguntei tentando parecer natural. "O Otaviano vai." , respondeu tranquilamente enquanto digitava alguma mensagem.
 
Senti o meu rosto incendiar. "Quer dizer que pra montar uma fabriquinha pra ele é pouco e pra mim é suficiente?" Ele parou de escrever e cruzou os braços, me olhando. "Conversa encerrada.", pensei. "Não se trata só de montar uma fabriquinha. Preciso de você neste projeto, e nos outros dois que vão exigir tanto quanto e garantr uma boa exposição na empresa. Vai ser bom pra você." 
"Não é bom pra ele, mas é bom pra mim?!" pensei ainda mais indignada. Não consegui continuar relutando. Instantes depois, dei uma resposta educada, me levantando da mesa.
 
Mais tarde, na hora do almoço, saí para um restaurante afastado. "Como ele fez isso comigo? Era a minha chance! Ele não sabe de nada, o Otaviano é um moleque! "Quando eu ainda esperava pelo prato, uma criança na mesa do lado chorava, daqueles choros sem lágrima. Irritada, desisti do almoço e fui andar um pouco, o tempo já estava melhor para um volta pelos arredores.  
 
Me dei conta de que o Otaviano havia desenvolvido outros projetos como esse, incluisve em outro país. Ele vinha de uma área especializada no assunto, recentemente promovido por mérito; férias em Chicago, dois MBAs, sendo que um deles, todos os meus chefes dos últimos três anos se cansaram de recomendar pra mim. E eu, tranquilamente amparada pela minha "esperteza", não tinha investido tanto no meu preparo para este projeto quanto ele. A responsável pela perda da oportunidade era unicamente eu.
 
Comprei um sorvete e sentei na mesinha do café em frente. Em alguns assuntos eu era tão adulta e em outros tão criança. Lembrei-me do meu amigo, recém-casado pela primeira vez, aos quarenta e dois anos, com a mulher que havia procurado "Desde os dezoito!", dizia ele sorridente. Estávamos dando uma festa de despedida, pois se mudaria com a mulher para o Canadá a trabalho. "Sabe? Acho que o nosso hino nacional tem uma maldição, tenho até medo de repetir" Baixamos os talheres a espera da pérola ou da piada e o encaramos. "Olha o verso: ‘Deitado eternamente em berço esplêndido’ é por isso que esse país não vai pra frente, desperdiça as riquezas e oportunidades que tem: fica o tempo todo no berço, esperando que os outros venham dar a mamadeira, trocar a fralda, dar um brinquedinho… come, dorme, daí, dá uma preguiça…"
 
A gente não faz porque acha difícil e tudo é difícil pra quem tem preguiça. Tudo é difícil pra quem acha que a responsabilidade pela sua própria vida é exclusivamente dos outros. A gente arruma justificativa para que nada seja feito. Aí, deita no berço esplêndido pra esperar pelas boas coisas que virão, se esquecendo por fim, que há coisas pelas quais não se espera.   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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