Nunca mais

Nunca, mas nunca mesmo, vou a um banco com porta giratória e sensor de metais que não tenha, do lado de fora, um guarda-volumes. E nunca com uma bolsa grande com badulaques dentro, precisando de faxina: moedas, grampos, brincos, pilhas, papéis, papéis, papéis, canetas, guarda-chuva, desodorantes, chaves, etc, etc, espalhados, fora de uma bolsinha que eu poderia fácil e discretamente colocar naquelas janelinhas porta-objetos que ficam ao lado da porta. E nunca, vou a um banco com a bolsa assim quando eu estiver com pressa.
 
A fila para passar pela tal porta estava grande e cheia de gente irritada. Pensei que todas armariam um discurso ou um escândalo mesmo pra convencer o segurança de que aquilo tudo era simplesmente ridículo e que ele parasse de frescura e liberasse logo a porta.
 
Mas a fila foi andando porque a porta não funcionava ou porque todos estavam conformados em deixar as coisas ali. Apostei na primeira hipótese e só tirei as chaves.
Na minha vez, eu não passei e a primeira pergunta do segurança foi certeira: "A senhora tem moedas na bolsa?"
"Moço, as moedas estão todas espalhadas na bolsa, não posso entrar?",
"Senhora, por gentileza, tire as moedas.", me respondeu com um ar "ah, me poupe e tira logo".
"Que droga de porta…" rosnei pra eu mesma engolindo a raiva, contraríadíssima.
 
Embora eu estivesse com vontade, vi que não valia a pena discutir. O procedimento era do banco, o segurança estava cumprindo ordens, era para a nossa segurança contra assaltos, tempo passando, inútil discussão. Fui até o centro do salão e em cima dos envelopes de depósitos e pagamentos, despejei tudo o que estava na bolsa para encontrar os metais e guardá-los na bolsinha. Acabei limpando a bolsa em público, joguei fora alguns papeis velhos, tíquete de estacionamento, milhares de comprovantes de compras com cartão, papel de bala, pilhas velhas.
 
Levei menos tempo pra resolver a situação do que a senhora que estava na minha frente, insistindo que na sua bolsa não havia mais nada, e era mentira, lógico, só queria pressionar o coitado do segurança, que repetia as mesmas ordens com o "por gentileza" , fazendo das tripas, coração, para ter paciência.
Depois que a mulher desistiu, aproximou-se de mim e começou a reclamar do absurdo, etc, etc e eu, a um triz de perder a calma, naõ sei como, disse simplesmente: "Acredite, era melhor a senhora ter encurtado a conversa e tirado os metais da bolsa. Ficou mais nervosa, perdeu mais tempo e não vai conseguir entrar."
Entre a calma e satisfação de ter ensinado alguma coisa boa pra alguém, olhei pra ela com um ar de dinginidade daqueles: "não-ter-sofrido-o-desgate-e-perda-de-tempo- com-o-stress-de-uma-discussão-com-um-segurança-de-porta-giratória-com-detector-de-metais." 
A mulher olhou pra mim de lado e voltou para o segurança, gritando pra ele chamar o gerente. "Olha que v…", pensei, indo atrás com mais raiva, com os objetos na mão e a bolsa vazia na outra, despejando tudo na janelinha, inclusive meu caderno de aros de metal. Nunca, mas nunca mais vou tentar ensinar algo pra alguém que não dá a mínima e quer ver o circo pegar fogo ou que o seu próprio mundo se exploda.
 
"Não vai dar pra passar o caderno do lado de dentro senhora " disse o segurança tirando o caderno com delicadeza, como quem se aproxima de um criminoso com uma arma prestes a atirar. "O que eu faço então? disse eu com tom meio histérico. "Venha, o caderno pode passar com a senhora." Passei e tal porta não apitou. Fiquei tão satisfeita por ter entrado na segunda tentativa que, quando a mulher, que batia boca com o coitado do segurança, me viu passar pra dentro através da parede de vidro, naõ resisti e mostrei a língua fazendo careta. Pelo menos ela fechou a boca.
 
Meia hora de fila, revirei a bolsa de novo saí do banco. "Assalto!!!" gritou alguém me empurrando um objeto pontudo nas costas. Me virei, pronta pra entregar a bolsa – reagir jamais e mesmo que eu quisesse não conseguiria pois a minha adrenalina, pra essas horas, não me impulsiona pra atacar ou fugir, e sim implodir.
Vi o filho do meu vizinho, um rapazote que adorava aplicar pegadinhas com as velhinhas do prédio, cair na risada com um outro amigo, quem provavelmente gritou. Fiquei uns segundos parada, mas era somente um tempo pro meu corpo reverter a ação da adrenalina: levantei a bolsa e o ataquei com ela, gritando de raiva: "Essa é pela dona Sonia!" a idosa de 68 anos que ele gostava de assustar aparecendo de repente no hall de elevadores dando gritos, "Essa é pela p… da porta giratória contra assaltantes!", " E essa, é por mim!"
 
Eles sairam correndo, rindo mais alto e os vendedores ambulantes começaram a rir, e falar "a mulher tá uma onça!" Me recompus e saí andando rápido. Nunca, mas nunca mais vou a um banco com a bolsa tão leve.  
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