A felicidade que o valor dá

"O que foi? Parece triste, aconteceu alguma coisa?", perguntei com naturalidade, depois de engolir rápido um gole de água, sem desviar os olhos dela.
Minha colega de escritório e eu tínhamos acabado de almoçar depois de uma reunião de trabalho. O dia estava exuberante; sem nuvens no céu e uma temperatura agradável com brisa, trazia uma sensação que a primavera chegava mais cedo.  
"Nada, não, é o calor." disse esboçando um sorriso,  com os olhos baixos e opacos.
Não insisti, não éramos amigas.
 
Mas eu tinha visto aquele olhar há alguns dias atrás quando saí com minha amiga curitibana para comprar tolhas para o seu enxoval.
Tinha sido outra manhã agradável, entre tolhas e lençóis de algodão egípcio numa loja de atacado, escolhendo as cores, os roupões, as tolhinhas do lavabo.
Gosto de participar destes momentos. Quando acontecem e estamos cheios de emoção, quase sempre não temos por perto alguém que compartilhe a alegria de coração aberto, atenção e o principal, humildade suficiente pra não estragar o momento com um rancor contra a vida que pergunta pra Deus: "E eu? Porque não eu?".
Deus, como o Jota Quest, manda o recado: "Por favor, espere a sua vez, certamente ela virá." Quando a vendedora exibiu os chinelinhos-pantufas com o mesmo bordado, me lembrei da minha vó, que costumava dizer pra nós: "Cabe à gente acreditar e à Deus providenciar." "Ah, vó, cansei de acreditar!" resmungavamos eu e minhas primas na frente do espelho, inconformadas em estar na casa dela sábado à noite, comendo bolo de laranja, sem baladinhas e sem namorados. "Quando a gente não acredita, nem Deus faz o milagre. Pra quê? Pra gente virar pra ele e dizer: ‘Não quero mais.’?!? No meu tempo…"
 
"Sabe? O Fernando está cuidando da reforma da nossa casa. Ele nem queria me deixar vir comprar as toalhas achando que eu fosse comprar porcaria…" Coloquei a colcha bordada de volta na prateleira, acordada pelo tom da voz que vinha triste. Olhei pra ela. "Eu disse pra ele ficar tranquilo que eu daria o meu melhor."
 
O olhar dela. Há alguns dias perguntei se ela estava feliz. Embora houvesse algum entusiasmo nos preparativos do seu casamento, uma pontinha de orgulho por poder fazer as coisas do jeito que ela sonhava desde a adolescência, eu sentia falta do brilho no olhar. Podia ser um mero estranhamento do meu lado romântico, que sonhava com um momento tipo oitava maravilha, fogos de artifício, sétimo céu, nirvana. Como eu não tinha vivido essa experiência ou compartilhado muitos outros, jamais poderia saber se era perfeitamente normal não ver os olhos brilhando, mesmo por segundos, durante esses momentos.
 
"Vão ver roupas de cama de solteiro?" perguntou a vendedora nos interrompendo. "Ah, sim," disse ela, recomposta. "Pode ser qualquer tecido mais barato, é para o quarto de hóspedes." Depois de uma certa idade, o estado civil deveria ser chamado de estado de saúde: se casada, parabéns, você está em forma, não tem colesterol ou triglicérides e ealém de tudo, está mais linda do que aos dezoito anos. Se solteira, você é leprosa e pode contagiar com o contato, logo, tudo o que usar deve ser descartado; também não saia na rua, pois pode assustar as pessoas. "Eu tenho certeza que o Fernando vai gostar, não é?", disse me olhando com um ar de prazer. Estava tudo bem, pensei afinal voltando para o instante anterior da conversa, bobagem minha. "Você não acha?", insistiu. Dei uma risada e concordei pela terceira vez.
 
No escritório, depois do almoço, o email do pessoal do planejamento orçamentário finalmente autorizava o uso de um recurso excedente para aumentar o salário de um funcionário que há tempos fazia por merecer. Mas não fiquei muito segura se era uma ação suficiente para acalmar a sua inquietação por reconhecimento, pois naquela semana ele saíra duas vezes para fazer entrevistas no mercado e ainda havia os outros funcionários, que também mereciam, mas não poderiam usufruir da mesma liberação por questões burocráticas, difíceis de aceitar e muito menos de explicar. "Quero saber se o que conseguimos pra você será suficiente pra manter o seu interesse aqui. Quero dizer, está disposto a abrir mão do mercado e receber os desafios que eu tenho pra você?" comecei.
 
Ao ver seus braços cruzados, o olhar que eu vi naquela manhã na colega de escritório, pensei ter feito algo errado. Não sei se fora o entra e sai de pessoas no café pois as salas de reuniões estavam lotadas e o corredor me parecia um lugar pior, ou meu sentimento de estar sendo injusta com os outros, fazendo minha consciência pesar e a minha raiva pela sua falta de lealdade aumentar. Recusou a proposta reclamando de tudo, falando coisas com sentido e outras sem, sentindo-se, enfim,  não reconhecido pois a proposta que ele esperava só havia aparecido no momento em que decidiu procurar outro trabalho – pra ele não era reconhecimento e sim necessidade. 
 
Percebi que as oportunidades e a formação que lhe dei e o ajudaram a decolar, não tinham nenhum valor – e se tiveram algum dia, acho difícil que eu venha a saber um dia. Minha admiração pelo seu talento, sua franqueza e atitude foram dando lugar ao meu orgulho ferido e à constatação de que não havia mais nenhum grau de confiança e boa vontade entre nós. "Bem, sendo assim, vá procurar o seu lugar no mercado. Eu vou encontrar quem eu preciso pra continuar ." Ele tinha suas razões e eu, as minhas.
 
Mais tarde, não pude deixar de lembrar dos olhares dos três. Olhar de quem estava na miséria.  
De quem achava que pedia pão e achava que recebia pedras, padecendo, depois de tanto não ter o pão, de fome e de forças. Olhar de quem estava esgotado e vazio. E não há nada que a religião, as compras, o casamento ou uma promoção possam fazer. É com a pessoa, sua alma e o seu acordo com a vida.
 
Se o seu acordo só tem pretensões que se superam segundo após segundo e, sobretudo, pressa, é a insastisfação que vai inquietar a alma num desassossego sem fim – nada que obtenham, conquistem, recebam terá valor suficiente ou será certo pra contentar.
 
Mas se o seu acordo tem um pouco que seja da vontade de ser feliz, o tempo é o agora e a satisfação é o que vai contentar a alma numa busca consciente do que é melhor pra si. 
Vai saber reconhecer e apreciar o valor de cada experiência e ganho conquistados na jornada. Vivendo assim, a alma será feliz, não vai se esconder da vida por medo de nada. E também, estará quase sempre farta e saciada.
 
Quase sempre, pois ninguém é perfeito.
Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s