Sorte à moda Chinesa

No biscoito da sorte do jantar desta noite, "Não tente tirar a lua do fundo do mar".
Fechei o livro que usava pra estudar Francês e a agenda onde eu anotava, entre uma garfada de frango xadrez e outra, tarefas a cumprir na semana a favor dos meus planos pessoais, já que a agenda profissional, já explodindo de deveres, ameaçava minha agenda pessoal de invasão. E se eu deixasse isso acontecer, a derrota dos meus soldadinhos de chumbo seria certa.
 
Estaria eu em estado de loucura almejando ir pra França nas próximas férias e estudar esta lingua quando o meu chefe me sugeria estudar mandarim e melhorar o inglês, recomendando também, depois de um almoço comigo encurtado por uma visita de emergência a uma oficina mecãnica que eu deveria trocar urgentemente de carro?
 
Durante a banana caramelada, me lembrei de um poema de Alphonsus de Guimarães, "Quando Ismália enlouqueceu,/Pôs-se na torre a sonhar…/Viu uma lua no céu,/Viu outra lua no mar./As asas que Deus lhe deu/Ruflaram de par em par…/Sua alma subiu ao céu,/Seu corpo desceu ao mar… ", e sinceramente fiquei um instante confusa. Os biscoitos da sorte não deveriam, especialmente num domingo à noite, nos proporcionar mensagens de incentivo à fé na boa sorte? 
 
As mensagens enigmáticas deveriam ser proibidas ou que, ao menos, os tais biscoitos contivessem avisos, como contêm os pacotes de pães para alérgicos a glútem: em vermelho na embalagem, deveriam alertar "Contém mensagem enigmática" E, se impossível, que trouxessem uma legenda de resposta invertida no rodapé da embalagem. Ficaria mais fácil rasgar o papel e jogá-lo no lixo. Tais mensagens provocam reações alérgicas em pessoas hipersensíveis a pensamentos e emoções fortuitas de alta intensidade.
 
Tentei não me importar, afinal, por recomendação médica, do meu endocrinologista, eu não deveria levar nada a sério na minha vida. Somente as folhas verdes e os palitinhos de cenoura, que me proporcionariam felicidade verdadeira e douradoura. Palitinhos de cenoura que eu me levantei pra preparar para o dia mundial da dieta: a segunda-feira. Adoro celebrações.
 
"Não enlouqueça" , "Não tente se matar"? ou "Depois de Neil Amstrong, você também pode conquistar a lua, mas faça como ele, busque-a no céu, ok?", pensei guardando os meus livros, agenda pessoal e biscoitos de chocolate, este último, na lata de lixo.
 
Montando a pilha de jornais para a coleta ambiental, que eu finalmente acionaria pela primeira vez nesta semana, vi um caderno especial sobre a China que eu não tinha lido e embaixo, um caderno com um artigo falando novamente sobre o seu crescimento econômico irresponsável do ponto de vista ambiental. Não bastasse os níveis catastróficos de emissão de gases estufa,  proliferação de espécies invasoras e nocivas, falta de procupação com a falta de água e a segurança alimentar, ele ainda influenciava o meu chefe a nos pedir uma conuta "não-sustentável" no trabalho, querendo sempre uma rápida evolução das inúmeras frentes de trabalho que ele pede pra que seus resultados, demonstrados no balanço anual, atinjam escala e ele, sozinho com o seu bônus, possa ir a Paris com a família. Meu desafio não era obedecê-lo, mas sim, parecer que eu obedeço pois não gostaria de fazer as coisas como se somente o objetivo importasse. Queria fazer as coisas cuidando do que mais importasse em redor também, especialmente das pessoas envolvidas.
 
Essa preocupação era parte da loucura contra a qual o biscoito me prevenia? Parecia que sim, pois velocidade e liderança vibrante estavam sendo pedidos e não mudança de modus operandi. E estudar mandarim não significava abrir mão do francês, assim como um carro melhor – não necesariamente novo – não significava abrir mão da viagem à França. 
 
Mais uma oportunidade para encarar as novas exigências do mercado que eu atendia como uma oportunidade de aprender a ser mais decidida e empenhada a trabalhar com escassez de recursos, como tempo e pessoas, sem esgotar os existentes. Só na prática daria pra saber se isso seria realmente possível pra alguém que nasceu dez anos antes da geração da era da informação pois a minha é a fabril ou talvez, pelo meu pensamento de querer cuidar, contar com o tempo de cada coisa, fosse ainda anterior, a agrícola. E na era da informação, caiu na rede, tem que ser peixe e nadar a favor da corrente.
 
Fui pra cama com o caderno sobre a China, pra começar a entender, afinal, o que o povo contemporâneo tem de tão interessante para o mundo agora além da suas tradições milenares? Talvez todo o seu estilo não fosse inteiramente dito através dos biscoitinhos que, então, serviriam apenas para divertir, instigando somente aos tolos e indecisos com reflexões inúteis. Também seu estilo de liderança não se resumiria a atitudes semelhantes ao do professor chinês Li Yang que ensina inglês como se fosse um líder religioso: em retiro ou em concentrações de 30 mil pessoas, utilizando um "fast program", cheio de bordões de auto-ajuda, ensinados aos gritos e colocados à prova em jogral; se todos tivessem decorado suas frases, passariam para as próximas etapas e estariam formados. Ele era um líder vibrante, veloz, mas ao contrário do que diziam seus apaixonados seguidores ou autoridades satisfeitas com estatisticas – milhões de estudantes de inglês que logo, em substituição, abandonarão o russo, – usava um método de ensino de eficácia, no mínimo, questionável.
 
Era bom conhecer as oportunidades geradas pelo estilo do país, sem deixar de considerar, afinal, a ameaça que significa sua influência sobre líderes de pouco entendimento. A sorte estava lançada.
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