O menino do caminhão de lixo

Era a segunda vez que eu passava pela rua àquela hora e via um caminhão grande passando devagar pela rua, recolhendo o lixo deixado para coleta do serviço público. 
 
O caminhão passava devagar, mas o menino magro que o acompanhava corria, pegando os sacos e jogando pra dentro. De longe se via cachos de cabelos balançando no vento do movimento, pernas e braços finos se sacudindo no ar, ora para pegar os sacos, ora jogá-los e se pendurar na carroceria pra ir de caminhão até o próximo montinho. 
 
Hoje ele estava usando uma máscara engraçada, não deu pra ver de perto, mas parecia uma fucinheira, possivelmente feita com um elástico grosso e uma tampa de garrafa pet, já bem suja pelo uso. Pra que serviria aquilo durante o trabalho? Não aspirar partículas? Não sentir tanto o cheiro? Mas dali a pouco, quando eu atravessei a rua e comecei a caminhar na mesma calçada onde ele corria, notei que já estava sem a tal máscara, poderia ter sido um brinquedo encontrado que ele logo descartou.
 
Depois de uns instantes, deixei de ver o menino pra ver o movimento, a roupa pra lá e pra cá dançando como se estivesse num varal ao vento, riscos no ar, no caminhão e sacos de lixo recolhidos ou ajeitados mais pra dentro. Os mais pesados ou mais mal-amarrados eram deixados rapidamente pra trás, para o próximo caminhão coletar. Voltei a pensar no menino: as instruções deviam ser simples: recolha os sacos amarrados e leves e ele, executava diretamente o serviço, sem pensar demais. Não vi nenhum tropeço, nenhuma hesitação, nenhuma parada do caminhão para que ele o alcançasse, nenhuma queda, nenhum saco caindo do outro lado, na rua, nenhum lixo voando, ninguém reclamando, nenhum carro buzinando.
 
Virei a esquina e pensei no quanto a gente complica as coisas na hora de recolher o lixo. É, aqueles nossos: sobras de discussões, mal-entendidos, assuntos mal-resolvidos, problemas não-resolvidos, fim de relacionamento, auto-censura, pessimismo, inimigos internos, passados, não-não. Às vezes a gente é o menino, mas não como aquele que eu vi: ágil, recolhendo sem pensar se aquele serviço era bom ou ruim: fazia e pronto. Ao contrário, a gente se atrapalha com estes lixos, confunde e quando vê, se joga pra dentro da carroceria ou se larga na calçada por ser um lixo pesado demais ou mal-amarrado, esperando uma coleta dadivosa a nos tirar no chão. Ou às vezes a gente é como o caminhoneiro, sai recolhendo o lixo alheio; mas nesse caso, frequentemente a gente recolhe pra buscar nele alguma utilidade, esquecendo que aqueles sacos nada mais têm do que lixo.
 
Seria tão mais fácil a gente se determinar a executar a limpeza e pronto. Partir pra vida e buscar coisas inteiras e reais, que sejam boas pra nós.
O que nos falta? Reconhecer produzimos lixo e nos dispormos a recolhê-lo e eliminá-lo rapidamente sem maiores dramas? Ou o entendimento pra separarmos as utilidades do lixo?
 
Sentei-me na cadeira da sala de aula e logo os pensamentos diversos começaram a se levantar, como o pó de giz que o professor estava levantando ao limpar o apagador antes de limpar a lousa. Preocupações, dilemas, dúvidas, erros, temores, censura, censura, censura, Me concentrei no braço do professor passando o apagador com vigor pela lousa toda escrita, imaginando que é isso que eu tenho que fazer com a minha mente divagadora, que adora desamarrar os sacos de lixo e espalhá-los no chão novamente. Eu já tinha chegado às soluções e respostas, também ao perdão, à fé e a liberdade de ser, pra que pensar no que não serve mais?
 
"Vamos pra página 10 da apostila – Desenvolvimento Sustentável como Negócio.", falou o professor ainda virado pra lousa, limpando. Reciclagem, era o que o menino devia fazer depois da corrida com o lixo e eu, só precisava fazer como ele: executar o serviço, reciclar o lixoe pronto.
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